Ampliando o diálogo entre ciência e sociedade no contexto de pandemia e infodemia

Problemas complexos e emergentes como as pandemias e as consequências das mudanças climáticas globais são situações intensamente permeadas por incertezas. As limitações da ciência em responder prontamente a todas as perguntas associadas a essas crises têm indicado a necessidade de se promover a ampliação do diálogo entre o meio acadêmico, a sociedade e os tomadores de decisão. Cabe a nós acadêmicos democratizar o conhecimento, de tal forma que haja diálogo e reflexão, e assim possamos denominar este movimento como ciência pós-normal.

Há grandes dificuldades em se efetivar interação e diálogo entre distintos atores sociais, sobretudo pela forma como se dá a convencional produção e apropriação dos discursos hegemônicos do saber científico. Com isso, e diante de crises extremamente impactantes, como no caso da Covid-19, ressalta-se a importância de serem promovidos processos participativos e dialógicos entre cientistas e sociedade. Em meio a este contexto, é necessário também reconhecer as limitações da participação legítima, bem como a crise emergente de desinformação deflagrada por meio da hiperconectividade das mídias sociais digitais.

Estas discussões são focais em artigo científico que publiquei em janeiro na revista científica “Futures”. Busco explorar a relevância de um diálogo que seja capaz de promover, por meio de abordagens de pesquisa participativa nos processos de integração e reflexão sobre incertezas, uma melhor qualificação e robustez social em produção científica, refletindo em mais assertivas tomadas de decisões.

No contexto da Covid-19, o artigo problematiza essas questões em face da exclusão cognitiva (ruptura entre domínio de conhecimento acadêmico e popular) e da infodemia, fenômeno que remete à disseminação descontrolada de (des)informação associada a um determinado problema, tornando sua solução mais dificultosa. Trata-se do conjunto de fake news, desinformação e teorias conspiratórias que provocam rupturas na sociedade, resultando também em disseminação de ódio e adoção de posturas anticiência. No caso específico da pandemia, verifica-se que a infodemia é uma interferência que pode se associar ao descontrole e à ocorrência de milhares de mortes evitáveis.

Com o objetivo de apresentar potenciais soluções, abordo algumas características da pesquisa participativa. Destaco, como medida de promoção de diálogo entre distintos atores sociais, a necessidade de empoderamento de pessoas marginalizadas e a mitigação de desigualdades, de tal forma que possamos vislumbrar um processo mais justo e simétrico. Para tanto, contamos com uma transformação da relação unilateral convencional entre ciência e sociedade.

As propriedades adaptativas das abordagens participativas podem ajudar a superar a exclusão cognitiva e contribuir para evitar ou mitigar as rupturas antidialógicas da infodemia, contribuindo também para integrar as incertezas no processo de aprendizagem social. Os atributos dialógicos das abordagens de pesquisa participativa também podem promover uma diversidade de soluções e conhecimentos, além de serem capazes de estimular que parte dos acadêmicos façam uma autorreflexão.

Sobre o autor

Leandro Luiz Giatti é professor associado no Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).  Atua na coordenação de sub-projeto de pesquisa junto ao Interdisciplinary Climate Investigation Center (INCLINE). 

Publicado por

Agência Bori

A Bori conecta o conhecimento produzido por cientistas brasileiros à imprensa de todo o país, disponibilizando estudos inéditos acompanhados de textos explicativos e do contato de um porta-voz do trabalho a jornalistas cadastrados

Sair da versão mobile