Da produção à distribuição: os paradoxos da segurança alimentar na Amazônia

A Amazônia é gigante, assim como as suas centenárias Samaúmas, como o seu extenso Rio Amazonas, como os seus imensos Pirarucus. E, em meio a esta gigantesca biodiversidade, habitam milhões de pessoas. E milhares destas ainda vivem com insegurança alimentar.

A Amazônia é, também, paradoxal. Em meio à maior biodiversidade do planeta, há fome; em meio à maior oferta de água doce do mundo, falta água potável. Quando se pensa em segurança alimentar, pode ser raro lembrar da água, mas ela tem suma importância: afeta, de diversas formas, tanto as plantações quanto a pesca, além da segurança dos alimentos durante o processamento.

Enquanto a estiagem dificulta a produção de alimentos do Sul ao Nordeste do Brasil, na Amazônia o maior desafio é o excesso de águas. As volumosas chuvas, que chegam a ultrapassar os 3 mil milímetros anuais, concentram-se especialmente no chamado “inverno amazônico”.

Essa dinâmica afeta principalmente a várzea amazônica, que sofre com os chamados pulsos de inundação: entre as estações de seca e cheia dos rios, as águas sobem mais de 10 metros em média todos os anos. Nas secas, os rios se afastam das casas; durante as cheias, ficam sob as moradias — às vezes, até adentram nas mesmas.

As casas ribeirinhas da várzea são adaptadas aos ciclos de seca e cheia, sendo tipicamente palafitas ou flutuantes de madeira. Porém, mesmo que acostumadas a estes eventos, muitas famílias ainda sofrem dificuldades durante parte do ano em função de outro paradoxo: na fartura de águas das cheias, diluem-se os peixes nos rios e lagos.

Junto à farinha de mandioca, os peixes são, historicamente, a base da alimentação ribeirinha. Na várzea, a mandioca (assim como outras culturas) é plantada nos roçados durante a vazante (descida das águas) dos rios e colhida na enchente (subida) — ou seja, nos poucos meses em que há solos não inundados.

A pesca, parte importante da economia local, também ocorre de forma mais intensiva durante a seca. Isso porque durante a cheia, os peixes podem migrar pelas águas, dificultando a atividade pesqueira e aumentando a insegurança alimentar de muitas famílias.

Além disso, a água de boa qualidade é necessária para o preparo dos pescados, mas é um bem escasso em uma região que não tem abastecimento público de água potável. Este mesmo desafio impacta a produção das polpas de frutas amazônicas, como o açaí, produto altamente valorizado no Brasil e no mundo.

Até os deslocamentos dependem das águas. Com áreas rurais separadas por distâncias amazônicas, a região tem os barcos como principais meios de transporte. Na região do Médio Solimões, por exemplo, existem comunidades ribeirinhas a mais de 200 km do centro urbano mais próximo. Em época de cheia, a distância pode até ser reduzida pela formação de atalhos — ainda assim, viagens podem durar longas horas, exigindo boas quantidades de combustível.

As distâncias, é claro, também impactam a segurança alimentar. Para o transporte de alimentos frescos, são necessárias grandes quantidades de gelo. É mais um desafio, considerando que, em muitos locais, a única fonte de energia são geradores a combustível.

As soluções para o desenvolvimento da região precisam levar em conta os paradoxos amazônicos. Uma boa saída são as Tecnologias Sociais, que contam com a participação das populações locais na resolução de problemas. Dessa forma, os projetos são adequados especificamente a cada localidade atendida. Para cada região, diferentes desafios. Para cada desafio, uma tecnologia.

 

Sobre o autor

 

Leonardo Capeleto de Andrade é engenheiro ambiental, doutor em Ciência do Solo e pesquisador no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá na área de Tratamento de Água para comunidades ribeirinhas amazônicas.

Publicado por

Agência Bori

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