Com base em demandas de jornalistas da região, primeira imersão de Amazônia da Bori proporciona encontro de saberes

Por Débora Gallas*

 

Na primeira imersão da Bori voltada exclusivamente para a região Norte, jornalistas do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima conversaram com cientistas que realizam pesquisas na Amazônia em diversas áreas do conhecimento. O curso “Amazônia em Pauta”, que aconteceu de forma on-line nos dias 26 e 27 de abril, reuniu cerca de 20 profissionais da imprensa interessados em saber mais sobre impactos das mudanças climáticas na região e o papel dos saberes dos povos e comunidades tradicionais em prol da biodiversidade da Amazônia.

E por que decidimos priorizar os profissionais de imprensa da região Norte do país? A partir de conversas com 15 jornalistas da Amazônia, consultados pela nossa equipe desde dezembro de 2021, chegamos à constatação de que o jornalismo que se faz neste território possui peculiaridades que precisam ser levadas em conta e visibilizadas nas nossas ações de apoio à cobertura jornalística. São profissionais que estão no olho do furacão quando o tema é preservação da Amazônia e, por isso mesmo, sofrem censuras, coações e outros tipos de violência.

A falta de estrutura e financiamento para se fazer jornalismo na Amazônia também é uma queixa comum entre esses profissionais. O Atlas da Notícia 2021 destaca que 63,1% dos municípios do Norte brasileiro não contam com veículos jornalísticos, o que prejudica a cobertura local e sobrecarrega as redações regionais.

Assim como em outras ações da Bori, a construção do curso “Amazônia em Pauta” começou com uma consulta a jornalistas da nossa comunidade sobre as suas principais demandas na cobertura de Amazônia. O questionário que circulou on-line nas semanas anteriores ao curso trazia questões como: que temáticas costumam cobrir? Em que assuntos desejavam se aprofundar quando falamos de uma cobertura específica a respeito da Amazônia? Como é o seu contato com a produção científica que trata da Amazônia? E quais as suas principais dificuldades em pautas que envolvem dados científicos?

Ao todo, 63 jornalistas responderam à nossa pesquisa — grande parte com atuação em estados da Amazônia Legal. A maioria demonstrou interesse em entender mais sobre a degradação do bioma Amazônia e sua relação com as mudanças climáticas (68%), em como a biodiversidade da Amazônia contribui para a economia regional (70%), sobre o que os diferentes povos e comunidades da Amazônia e seus modos de vida têm a nos ensinar (68%) e em como manter a floresta em pé e garantir o sustento da população local (63%). Além disso, 41,3% dos respondentes apontaram que compreendem bem a linguagem das produções científicas, mas nem sempre sabem como transformar em pauta os dados da pesquisa. A partir da análise das respostas, formulamos a programação do curso para atender às demandas e sugestões.

Para definir os especialistas do curso, mobilizamos parceiros da Bori da região, como a Mayra Castro, empreendedora de Belém, no Pará, e membro do Conselho da Bori. Contamos também com as sugestões do Painel Científico para a Amazônia, rede que reúne cientistas de instituições do Norte e de outras regiões do Brasil que atuam em projetos no bioma, além de outros países amazônicos. O Painel foi responsável pela produção do “Amazon Assessment Report”, um extenso relatório que mapeia a Amazônia em áreas como história, cultura, ecologia e clima — cujas análises estão sendo divulgadas pela Bori desde março, no formato de artigos de opinião.

Com base nesses intensos diálogos, convidamos, para o primeiro encontro, os pesquisadores Marina Hirota, professora de Física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que estuda efeitos de perturbações como mudanças climáticas, incêndios e desmatamento na América do Sul tropical através de ferramentas matemáticas; e David Lapola, coordenador científico do programa Amazon-FACE: experimento de CO2 atmosférico elevado e seus efeitos na ecologia da floresta Amazônica e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para trazer o olhar das comunidades da Amazônia e como seus modos de vida podem nos ensinar a manter a floresta de pé, as convidadas do segundo encontro foram as pesquisadoras amazônidas Raquel Tupinambá e Patricia Chaves de Oliveira. Raquel é coordenadora do Conselho Indígena Tupinambá do baixo Tapajós, integrante da Associação de Moradores Agroextrativistas e Indígenas do Tapajós, bióloga e doutoranda em Antropologia Social na Universidade de Brasília (UnB). Patricia é professora da Universidade Federal do Oeste do Pará, pesquisadora na área de Etnobotânica e realiza extensão agrotecnológica com comunidades tradicionais na bacia do rio Tapajós.

Encontro de saberes

O “Amazônia em Pauta” abriu um canal de diálogo entre pesquisadores e jornalistas participantes. Os profissionais da imprensa  puderam conhecer a fundo as pesquisas dos convidados e debater estratégias de comunicação que sejam compartilhadas pela ciência e pelo jornalismo diante da desinformação e do negacionismo climático.

Um dos pontos salientados durante o debate foi a necessidade do jornalismo que reporta sobre mudanças climáticas saber lidar com as incertezas de modelos e projeções sobre eventos climáticos. No entender da Marina Hirota, o curso foi um momento único para criar uma ponte com jornalistas. “Trabalhando com eles, a gente pode ser mais efetivo em trazer informações que já são cientificamente comprovadas, abraçar as incertezas e, ao mesmo tempo, despertar o interesse das pessoas”.

A necessidade do jornalismo de quebrar estereótipos de comunidades tradicionais também é um aprendizado trazido pela fala de Raquel Tupinambá. “A floresta Amazônica é uma floresta construída muito dessa relação humanos-natureza”, destacou a pesquisadora em sua fala. Raquel explicou que a história de ocupação da Amazônia tem milhares de anos e que, portanto, as contribuições dos povos indígenas para a biodiversidade não podem ser invisibilizadas.

Patricia Chaves de Oliveira considera que o evento teve abordagem sistêmica ao trazer mais de um olhar sobre a Amazônia: o dos cientistas, dos jornalistas e dos povos tradicionais, representados pela participação da Raquel Tupinambá. “O curso promovido pela Agência Bori foi inédito pelo formato, em que a abordagem científica e a abordagem jornalística se complementam. Nos motiva enquanto cientistas porque falamos com um grupo de atores sociais que está na ponta, pois deles depende a disseminação científica de temas relacionados à Amazônia”.

Hirota e Lapola citaram a iniciativa de aproximar cientistas e jornalistas como desafiadora, mas necessária. “Estou certo de que o curso ‘Amazônia em Pauta’ da Agência Bori está promovendo uma tão-desejada aproximação entre cientistas e jornalistas de ponta na região visando levar a ciência mais atual e precisa sobre a região para o público em geral”, comentou Lapola. Hirota complementa: “Espero que seja uma prática cada vez mais comum, tanto vindo da Bori como dos próprios jornalistas e cientistas, que cada vez mais tenham a intenção de se entenderem e se encontrarem”.

Segundo os jornalistas participantes, o encontro com os cientistas ajudou no planejamento da cobertura. Para Priscila Castro, jornalista freelancer, o destaque foi “a boa vontade e disposição dos pesquisadores em esmiuçar as problemáticas para que a gente possa trabalhar novas pautas”. Fred Santana, do site Vocativo, ressaltou a disponibilidade dos pesquisadores: “a Amazônia é um dos temas mais importantes do jornalismo e da sociedade como todo. E mesmo morando no local, nem sempre há disponibilidade de fontes e pesquisadores para nos orientar com tanta atenção sobre o que fazer e o que não fazer nesse tipo de cobertura. O curso ‘Amazônia em Pauta’ caiu como uma luva nessa demanda e foi de extrema utilidade para nós”.

O jornalista Luciano Falbo, do Jornal e TV A Crítica, complementa: “as exposições sobre as mudanças climáticas ajudaram a compreender a dinâmica do processo e, particularmente, me chamaram a atenção as projeções do aquecimento na Amazônia e as formas como o bioma reagiria. Gostei também do caminho para acessar os dados do IPCC ter sido apresentado em detalhes. O acesso a essas informações certamente dá uma arejada na hora de pensar as pautas, nas abordagens que poderemos dar no futuro quando formos tratar dessa temática”.

 

As iniciativas da área de Amazônia da Bori têm o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Além de encontros com jornalistas e cientistas, antecipamos estudos e artigos de opinião de pesquisadores, com foco nos trabalhos produzidos em instituições localizadas na Amazônia. Se você é jornalista e ainda não está cadastrado na Bori, inscreva-se aqui para ter acesso em primeira mão a esses materiais. Se você é cientista e pesquisa Amazônia, faça parte do nosso banco de fontes e contribua para a cobertura jornalística sobre o tema.

 

*Coordenadora de Amazônia e Projetos Especiais da Agência Bori

 

 

Publicado por

Agência Bori

A Bori conecta o conhecimento produzido por cientistas brasileiros à imprensa de todo o país, disponibilizando estudos inéditos acompanhados de textos explicativos e do contato de um porta-voz do trabalho a jornalistas cadastrados

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