Cortes em P&D por causa da pandemia comprometem indústria de máquinas e equipamentos

Diante da pandemia do novo coronavírus, muitas empresas do setor de máquinas e equipamentos tiveram que cortar investimentos em projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e engenharia, o que pode ter impacto direto no seu desenvolvimento tecnológico de longo prazo. Essa análise é feita pela pesquisadora Cristina Froes de Borja Reis, da Universidade Federal do ABC (UFABC), que realiza pós-doutorado na Technische Universität Berlin, em relatório divulgado nesta semana. 

O relatório baseia-se em entrevistas com 32 altos executivos (diretores, presidentes e sócio-fundadores) de 20 empresas brasileiras e 12 multinacionais estrangeiras do setor da indústria de máquinas e equipamentos que atuam no país. Consultados por e-mail e telefone entre os dias 7 e 20 de abril, os executivos forneceram informações e percepções sobre o impacto da crise do coronavírus na cadeia de valor da sua empresa, que alterações os processos de produção sofreram, quais políticas públicas são necessárias e as medidas internas tomadas pelas empresas para mitigar esses efeitos no curso e no médio prazo.

As empresas ouvidas tiveram rupturas significativas nas suas cadeias de valor nacionais e internacionais. Segundo Cristina Reis, “com essas rupturas na cadeia, vai se perdendo o compromisso com o desenvolvimento tecnológico de longo prazo no setor, o que poderia gerar competitividade para essas empresas no mercado”. O setor de máquinas e equipamentos, um dos motores da dinâmica industrial e da economia, já vinha sofrendo com a crise econômica. Cristina observa o cenário com bastante preocupação: “o setor, que já era pouco baseado em atividades tecnológicas, ficou ainda mais comprometido”. 

As empresas entrevistadas na pesquisa tiveram uma redução de 20% a 90% na demanda de seus pedidos por causa da pandemia da Covid-19. Outros problemas relatados pelos executivos foram a ausência de fluxos de caixa e a restrição ao trabalho de seus trabalhadores impostas pelas regras de isolamento social. Empresas que reduziram a dependência por fornecedores, contando com redes locais, relataram menores rupturas nas suas cadeias durante a pandemia.

Para esses executivos, o acesso ao crédito de forma mais rápida e a redução da carga tributária são medidas necessárias de serem adotadas pelo poder público. Muitos entrevistados avaliaram que o pacote de medidas implementado pelo Ministério da Economia foi uma boa ideia, mas que houve falha na sua operacionalização já que, até o dia 20 de abril, o crédito emergencial do Governo Federal destinado a pequenas e médias empresas ainda estava retido nos bancos. Cristina também observou nas falas de seus entrevistados uma demanda por ação do Estado. “O Governo Brasileiro vem adotando uma política neoliberal de economia e, nesta hora, percebemos que as medidas desenvolvimentistas fazem falta. Os executivos precisam do Estado para resolver essa crise”, comenta a pesquisadora.

Publicado por

Agência Bori

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