Por Eveline Baptistella
A morte do caseiro Jorge Avala, de 60 anos, atacado por uma onça-pintada na região de Touro Morto, em Aquidauana, no Pantanal sul-mato-grossense, não foi apenas uma tragédia: foi também um alerta. O caso, que ganhou repercussão nacional, trouxe à tona uma prática ainda pouco conhecida do grande público: a ceva, oferta intencional de alimento a animais silvestres.
Uma das hipóteses para a morte do pantaneiro é que a onça envolvida já estivesse acostumada a circular pelo pesqueiro onde ele trabalhava, e onde ela seria alimentada. Embora o caso ainda precise de investigação, a ceva no Pantanal é uma prática real — e que exige atenção urgente.
Em Mato Grosso, a região de Porto Jofre virou polo para avistamento de onças-pintadas justamente pelo comportamento pacífico dos animais, que não se incomodam com a presença de barcos de turismo. Durante minhas pesquisas no Pantanal, me acostumei a ouvir que a onça-pintada, agora, vale mais viva do que morta. E o animal passou a ser protegido pela comunidade.Naquela região, foi-se o tempo dos conflitos com pecuaristas, que sofriam prejuízos devido à predação de rebanhos e, muitas vezes, promoviam a caça aos felinos.
Sim, o respeito à vida das onças-pintadas está ligado a questões econômicas. Animais que cooperam com o turismo contam com uma relativa rede de proteção. Em Porto Jofre, as pintadas,não são, hoje, dependentes da ceva. Mas a origem dessa comunidade de onças tolerantes começou com a oferta de peixes nas margens dos rios — estratégia para aproximar os animais e facilitar seu avistamento.
Em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul, a ceva é proibida há 14 e 10 anos, respectivamente. As onças de Porto Jofre são uma nova geração de felinos, ensinada pelos pais a aceitar a presença de certos humanos — mas ainda fogem de homens a cavalo, que associam à figura do caçador.
Mas não se pode perder de vista que a proximidade é perigosa — tanto para os humanos quanto para os animais. Ela cria uma rede de dependência que facilita situações como a que levou à morte de Jorge. Bichos “cevados” associam o ser humano à oferta de alimento e podem reagir com agressividade em momentos de estresse, inclusive causados por fome ou doenças. Além disso, tendem a perder habilidades naturais de sobrevivência e se tornam mais vulneráveis a caçadores. Em todo o mundo, a ceva é um sintoma de turismo mal regulado e ausência de fiscalização.
O caso de Jorge é resultado também de outras feridas no bioma: expansão da monocultura, desmatamento, incêndios criminosos e secas cada vez mais severas, intensificadas pelas mudanças climáticas. Com o agravamento da crise ambiental, veremos cada vez mais animais pressionados pela escassez de habitat e alimento. O poder público precisa incluir as populações tradicionais e os animais ao seu redor em sua esfera de consideração, criando não apenas políticas de proteção ambiental, mas também estruturas para garantir seu cumprimento.
À sociedade cabe verificar se suas escolhas de lazer são éticas e seguras para visitantes, moradores e fauna local. Atrações que utilizam oferta de alimento devem ser banidas — e podem também, desaparecer por falta de público. Pesquisar selos de turismo ético e checar avaliações em sites de viagem é um caminho possível para evitar o turismo que, literalmente, alimenta a ceva. Sacrificar o fascínio de alimentar um animal selvagem é muito pouco diante da urgência de reconstruir uma relação justa entre a humanidade e a natureza.
Em um planeta em colapso, a ética não é mais uma escolha: é a linha tênue que pode determinar o futuro. No fim, proteger os mais vulneráveis não é apenas sobre salvar espécies, mas também a nós mesmos.
Sobre a autora
Eveline Baptistella é professora e pesquisadora na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). É autora do livro “Animais e fronteiras: um estudo sobre as relações entre animais humanos e não humanos” (ed. Appris)
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