Zoantídeos são uma classe de invertebrados marinhos, parentes próximos das anêmonas e dos corais. Em artigo publicado na revista Química Nova na terça (22), pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e das Universidades Federais de São Paulo (Unifesp) e do Ceará (UFC) verificaram que espécies de zoantídeos coletados em ilhas oceânicas brasileiras produzem substâncias químicas com alto grau de complexidade e que podem apresentar potencial biomédico e industrial.
O metabolismo especializado dos zoantídeos é refletido em substâncias que dão vantagens à sobrevivência desses organismos, que vivem fixos e em condições adversas impostas pelo ambiente marinho, como a presença de predadores, alta salinidade e constante variação de temperatura.
Os cientistas investigaram o metabolismo de indivíduos das espécies Palythoa caribaeorum, Palythoa variabilis e Zoanthus spp. provenientes dos Arquipélagos de São Pedro e São Paulo, de Trindade e Martin Vaz, Fernando de Noronha, e do Atol das Rocas. Utilizando técnicas de química analítica – como as cromatografias líquida e gasosa, e a espectrometria de massas – os pesquisadores separaram e analisaram os compostos produzidos pelos zoantídeos. Softwares especializados permitiram construir redes moleculares e comparar os perfis entre diferentes espécies e locais de coleta. Essas análises geraram uma “impressão digital química” característica de cada amostra. As amostras foram coletadas durante expedições realizadas entre 2014 e 2015.
O estudo inova ao apresentar uma ampla análise da quimiodiversidade de zoantídeos provenientes de ilhas oceânicas da Amazônia Azul, disponibilizando publicamente os dados de espécies em locais ainda pouco explorados, mas com um enorme potencial bioativo. “Compreender padrões e funcionalidades ecológicas é o primeiro passo para a prospecção de substâncias com potencial biomédico ou biotecnológico”, afirma Bianca Sahm, pesquisadora de pós-doutorado da USP e autora do artigo. Ela integra o Laboratório de Farmacologia Marinha, coordenado pela professora Letícia Veras Costa Lotufo, que se dedica, há mais de 20 anos, ao estudo de substâncias com potencial atividade anticâncer provenientes de organismos marinhos.
Ao analisar espécies que vivem geograficamente isoladas e afastadas da costa, os pesquisadores podem observar o metabolismo dos organismos com baixa interferência de poluição, pesca e outras alterações ambientais causadas diretamente pelos seres humanos. Ainda assim, estes organismos não estão imunes às consequências das mudanças climáticas, e este é um dos pontos que o grupo de pesquisa pretende explorar daqui para frente. De acordo com Sahm, os dados apresentados neste trabalho podem ser considerados como ponto de partida para uma série temporal que irá analisar amostras coletadas a partir de 2015, a fim de investigar diferenças e semelhanças, principalmente depois de 2019, quando ocorreu a primeira grande onda de calor e aquecimento das águas oceânicas.
