3 de outubro de 2025 Foto: José Ferreira Saraiva e colaboradores
AmazôniaArmadilha usada para capturar mosquitos, com os encontrados na nova pesquisa, em área de mata
Armadilha usada para capturar mosquitos, com os encontrados na nova pesquisa

Highlights

  • Estudo no Amapá detectou a presença da forma pálida do mosquito vetor da dengue, zika, chikungunya e febre amarela, o Aedes aegypti var. queenslandensis
  • A variedade costuma ser encontrada em regiões quentes e secas, como Austrália e Mediterrâneo; porto de Santana (AP) pode ter sido a porta de entrada
  • A descoberta foi feita por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA), em parceria com o INPA, e outras instituições

 

Pela primeira vez, cientistas identificaram na Amazônia a forma pálida do mosquito transmissor de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela, o Aedes aegypti var. queenslandensis. O achado, feito em Macapá por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA) em colaboração com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a Secretaria Municipal de Vigilância em Saúde de Macapá (SMVS) e o Laboratório de Saúde Pública do Amapá (Lacen/AP), foi publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

A equipe instalou armadilhas em um fragmento florestal urbano de Macapá entre 19 e 24 de dezembro de 2024 e capturou 191 exemplares da variedade pálida do mosquito, confirmando a presença desse fenótipo na região. Até então, a variedade havia sido registrada no Brasil somente em Taubaté (SP), em 2020. Globalmente, ela é associada a ambientes urbanos quentes e secos, como os da Austrália e do Mediterrâneo.

O pesquisador José Ferreira Saraiva, autor principal do estudo, explica que a variante se diferencia pelo padrão de escamas claras no abdômen, enquanto a forma predominante no Brasil é escura. “Até o momento, não há evidências de que a variedade seja mais resistente a inseticidas ou transmita doenças com mais eficiência”, afirma.  

“No entanto, por estar associada a ambientes urbanos e regiões quentes, como a Austrália e o Mediterrâneo, sua presença na Amazônia acende um alerta para possível ampliação da faixa de distribuição e da sazonalidade, especialmente durante a estação mais quente e seca do ano, já que esta é uma variedade mais resiliente a essas condições”, ressalta.

Os autores sugerem que a variedade pode ter chegado à região pelo porto de Santana, a apenas 9,5 km do local da coleta, um dos principais pontos de entrada de embarcações internacionais. Em 2019, o porto já havia sido a porta de entrada de outro mosquito, o Aedes albopictus, hoje amplamente disseminado em Macapá.

Para os cientistas, a presença da variedade evidencia a urgência de fortalecer a vigilância entomológica (de insetos) em portos, aeroportos e áreas estratégicas, com inspeções regulares e instalação de armadilhas. Saraiva lembra que o papel da população continua central no controle tanto da variante pálida quanto das formas clássicas. 

“A medida mais eficaz continua sendo a eliminação sistemática de água parada ao menos uma vez por semana, mantendo quintais sem lixo ou entulho e guardando objetos sob cobertura”, orienta. “A proteção individual também deve incluir telas em portas e janelas, o uso correto de repelentes e roupas de mangas compridas, quando possível.”

Os próximos passos da pesquisa incluem ampliar a vigilância entomológica em Macapá e no porto de Santana com coletas trimestrais e análises genéticas para rastrear a origem da variedade e sua conectividade com outras regiões. “Precisamos compreender como essa população se integra à já existente e se apresenta riscos adicionais para o controle de arboviroses”, conclui Saraiva.

Após a conclusão do projeto que levou à descoberta, o pesquisador explica que a equipe pretende gerar novos dados para apoiar o modelamento da presença e da possível expansão de Aedes aegypti var. queenslandensis, estimando abundância, sazonalidade e a proporção entre a forma pálida e a típica. “Os próximos preveem vigilância entomológica contínua nos fragmentos florestais urbanos de Macapá e na área portuária de Santana, com coletas trimestrais”.

Os cientistas também planejam realizar análises genéticas. “Os resultados deverão orientar ajustes nas estratégias de vigilância e controle e serão comunicados periodicamente às autoridades sanitárias, condicionados ao suporte operacional e financeiro necessário para o projeto”, conclui.

Close do mosquito Aedes aegypti var. queenslandensis, variedade pálida do transmissor da dengue, sobre fundo branco

Variedade pálida do mosquito Aedes aegypti (Aedes aegypti var. queenslandensis), vetor de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela (Foto: José Ferria Saraiva e colaboradores)

 

DOI: https://doi.org/10.1590/0037-8682-0059-2025

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 3/10/2025, 23:45