17 de novembro de 2025 Foto: Migue Monteiro / Instituto Mamirauá
AmazôniaCasas ribeirinhas de madeira à beira d’água na Reserva Amanã, no Amazonas, cercadas por vegetação e pequenas embarcações, retratando o cotidiano das comunidades que lidam com o acúmulo de resíduos plásticos.
Comunidade ribeirinha da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no Amazonas, onde a a pesquisa foi desenvolvida

Highlights

  • As comunidades ribeirinhas da Amazônia recorrem à queima de resíduos inflamáveis e ao enterro de materiais não inflamáveis para realizar o descarte, práticas inadequadas
  • O manejo de resíduos mistura tradições culturais e adaptação a novos hábitos alimentares, com o aumento de plásticos e produtos industrializados gerando mais lixo
  • O levantamento, feito por pesquisadores da Universidade Estadual do Amazonas, do Instituto Mamirauá, da USP, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e da USP, pode fornecer dados para políticas públicas

Um estudo pioneiro analisou como os moradores das comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no Amazonas, lidam com os resíduos domésticos e quais impactos essas práticas têm sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Foram utilizados dados do Censo do Instituto Mamirauá, que incluiu perguntas sobre resíduos sólidos. Diante da falta de infraestrutura de coleta e saneamento básico, as comunidades desenvolveram práticas próprias, em sua maioria informais. Os métodos mais comuns identificados foram a queima de materiais inflamáveis, o enterro de materiais não inflamáveis, o descarte a céu aberto, o reaproveitamento pontual e, em menor escala, o transporte de resíduos para áreas urbanas próximas.

Os dados mostram que 88% dos plásticos, 63% das garrafas plásticas e 58% das fraldas, papel higiênico e absorventes foram queimados, enquanto 69% dos vidros, 63% das latas e 54% das pilhas foram enterrados. O óleo de cozinha apresentou destinos variados, sendo reaproveitado em sabão ou como alimento para animais em cerca de 30% dos casos. 

A predominância da queima e do enterro reflete soluções funcionais localmente, mas que não reduzem os riscos para a saúde ou ao meio ambiente. Isso porque a queima de resíduos plásticos e orgânicos libera gases tóxicos, como o enxofre, que pode provocar doenças respiratórias. O enterro de pilhas e baterias representa risco de contaminação do solo e das águas subterrâneas, podendo causar câncer, alterações genéticas e distúrbios neurológicos. Já o descarte em rios e igarapés compromete a pesca, principal fonte de renda das comunidades, e contamina os recursos hídricos.

“O problema é muito mais amplo, com pessoas morrendo por simples bactérias (E. coli)!”, diz o engenheiro ambiental Leonardo Capeleto de Andrade, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de São Paulo (USP), e autor-sênior do artigo, publicado na Revista Desenvolvimento em Questão. O trabalho foi desenvolvido durante o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior no Instituto Mamirauá, por Milena Pinho Barbosa, acadêmica de história na Universidade do Estado do Amazonas.

Além das limitações estruturais, a mudança nos hábitos alimentares e o aumento do consumo de produtos industrializados ampliaram a geração de resíduos plásticos e embalagens. Algumas iniciativas locais, como a venda de latas para centros urbanos, mostram potencial de reaproveitamento, mas materiais como plástico e vidro continuam sendo descartados inadequadamente devido à falta de valor de mercado e de cadeias de reciclagem. 

“Se o plástico tivesse melhor valor agregado, certamente haveria menor poluição e descarte inadequado no Brasil. O mesmo para o vidro”, afirma Andrade. O pesquisador ainda defende que não é justo culpar a população pelo descarte inadequado, uma vez que o poder público não garante as soluções necessárias. 

Sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010, Andrade observa que essa foi uma conquista apenas no papel. “As pequenas cidades nunca conseguiram se adequar. Se quisermos alcançar as metas, é necessário investimento massivo dos poderes públicos. Não adianta ensinar a população a separar o lixo, se no fim do dia o mesmo é coletado tudo junto e jogado em um lixão a céu aberto”, enfatiza. 

O especialista diz que soluções eficazes devem combinar infraestrutura de coleta, logística reversa, incentivos econômicos e apoio técnico, aliadas à educação ambiental e valorização das práticas culturais locais. “Podemos transformar garrafas plásticas em vassouras, mas seria muito mais adequado evitar o consumo desses produtos. O foco precisa ser na redução da geração de resíduos”, conclui Andrade. 

DOI: https://dx.doi.org/10.21527/2237-6453.2025.63.16793

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 17/11/2025, 23:45