13 de fevereiro de 2026 Foto: Stefan Walkowski / Wikimedia Commons
Medicina e SaúdeEsquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação do parasita, no interior de glóbulos vermelhos observados ao microscópio.
Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas

Highlights

  • Estudo da UFF em Oiapoque (AP) revela que a população convive simultaneamente com o parasito da malária e vírus como dengue, chikungunya e parvovírus B19
  • A tendência de associar toda febre à malária em áreas endêmicas impede o diagnóstico de viroses que possuem sintomas parecidos, mas exigem condutas terapêuticas diferentes
  • O intenso fluxo migratório e as áreas de garimpo na fronteira favorecem a circulação simultânea dessas doenças e sobrecarregam o sistema de saúde

Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes. Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque, na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.

Um novo estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.

“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.

Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos. Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.

“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.

O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.

“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.

A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.

DOI: https://doi.org/10.1590/0037-8682-0226-2025

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 13/2/2026, 23:45