13 de março de 2026 Foto: Lula Marques / Agência Brasil
Política
Levantamento revela como o destino das propostas dependia mais do clima político do que da urgência social

Highlights

  • Estudo revela que o Congresso propôs dezenas de leis raciais durante o regime milita
  • Projetos “acomodacionistas”, que reconheciam desigualdades, eram arquivados, e só avançou o “integracionismo”, do “somos todos iguais”
  • Pesquisadora alerta que o risco atual não é a falta de novas leis, mas os gargalos na execução daquelas já existentes

O senso comum costuma tratar a Ditadura Militar (1964-1985) como um período de vácuo de debate racial no Brasil. A narrativa histórica sugere que o mito da democracia racial impedia qualquer discussão legislativa sobre discriminação ou direitos específicos.

No entanto, uma pesquisa realizada na Universidade da Antuérpia (Bélgica), publicada na revista Sociedade e Estado, analisou 183 projetos de lei apresentados entre 1946 e 2012 e descobriu um cenário diferente. Mesmo nos anos de chumbo, o Congresso produziu dezenas de propostas tentando criar direitos para a população negra. A diferença é que, naquela época, elas eram feitas para não funcionar.

“A hipótese era que na ditadura teríamos menos propostas, já que o regime vendia o Brasil como uma vitrine da democracia racial. Mas encontramos mais de 30 projetos desse tipo no período”, explica Ana Júlia França Monteiro, autora do estudo.

A pesquisadora classifica essas propostas como “acomodacionistas”, aquelas que reconhecem a diferença racial para garantir direitos, como as cotas. O estudo mostra, porém, que o regime militar operava num paradoxo: permitia a apresentação dos projetos, mas garantia que fossem arquivados. A única lei aprovada no período foi justamente uma de perfil “integracionista”, que reforçava a ideia de que somos todos iguais, alinhada ao discurso oficial.

“Era o padrão da época: fazer para dizer que fez, mas sem aplicação real”, resume Monteiro.

A virada de chave só ocorreu na redemocratização, especialmente a partir dos anos 2000, quando 79% das leis analisadas foram aprovadas. O estudo também destaca uma curiosidade geográfica: o senador Paulo Paim (PT-RS) foi o parlamentar que mais apresentou projetos sobre o tema, superando políticos do Nordeste, região com maior proporção negra na população.

“A questão demográfica é importante, mas o vínculo com partidos fortes e a trajetória pessoal do político acabam pesando mais para levar esses projetos adiante”, avalia a pesquisadora.

Ao encerrar a análise no ano da Lei de Cotas (2012) e projetar o cenário para o Brasil de 2026, Monteiro alerta que o risco de retrocesso mudou de face. Com um Congresso de perfil conservador, a ameaça não é mais a ausência de leis, mas a falta de vontade política para aplicá-las.

“Nosso próximo foco tem que ser a implementação. Não adianta só criar a lei, precisamos construir os profissionais e os mecanismos para tirá-la do papel”, conclui. A pesquisa contou com recursos da VLIRUOS, agência de fomento flamenca.

DOI: https://doi.org/10.1590/s0102-6992-20254002e56085

Termos de uso

Todos os releases sobre as pesquisas nacionais já publicados na área aberta da Bori (e que, portanto, não estão sob embargo) podem ser reproduzidos na íntegra pela imprensa, desde que não sofram alterações de conteúdo e que a fonte Agência Bori seja mencionada.

Veja como citar a BORI quando for publicar este artigo:

Fonte: Agência Bori


Ao usar as informações da Bori você concorda com nossos termos de uso.

Publicado na Bori em 13/3/2026, 23:45