O estresse causado pela separação da mãe nos primeiros dias de vida pode afetar a saúde sexual e emocional de ratos na vida adulta. É o que aponta um estudo publicado na última sexta (17) na revista Brazilian Journal of Medical and Biological Research. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mostrou que animais submetidos a esse estresse no período pós-natal apresentaram menor motivação e eficiência sexual, além de mais sinais de ansiedade e depressão na idade adulta. Os achados podem ajudar a compreender mecanismos semelhantes em humanos e orientar o manejo de animais utilizados em pesquisas.
Para investigar os efeitos da separação materna sobre o comportamento sexual e emocional na vida adulta, os pesquisadores separaram filhotes de 12 ninhadas de ratos de suas mães por três horas diárias durante os primeiros 21 dias após o nascimento. Após esse período, os animais permaneceram com as mães até o desmame. Aos três meses de idade, foram avaliados quanto a parâmetros do comportamento sexual – como interesse pelas fêmeas e desempenho durante a cópula – e a indicadores emocionais, por meio de testes de preferência, campo aberto, nado forçado e labirinto em cruz suspenso. Os resultados foram, então, comparados aos de ratos que permaneceram com as mães durante todo o início da vida.
Ratos que passaram pela separação materna precoce apresentaram menor motivação sexual e pior desempenho durante a cópula. Eles também demoraram mais para ejacular e tiveram intervalos maiores entre as tentativas de cópula, indicando prejuízos no comportamento sexual. Marcos Ferraz, autor do estudo, defende que esses efeitos podem estar ligados ao impacto do estresse sobre o desenvolvimento do sistema nervoso. “Durante o desenvolvimento, há períodos críticos ligados à formação de neurônios e de conexões entre eles”, explica. “Quando o sistema nervoso é exposto a estressores nessa fase, pode haver alteração na construção dos circuitos neurais que regulam diferentes funções no organismo, incluindo a resposta sexual”, aponta.
Os animais que passaram pela separação materna também apresentaram prejuízos na saúde emocional, achados semelhantes aos observados em humanos expostos a estresse precoce. “Por exemplo, observamos que os animais submetidos à separação materna tendem a apresentar, na adolescência e na idade adulta, comportamentos classificados como tipo-ansioso e tipo-depressivo”, afirma Ferraz. O pesquisador destaca ainda que o momento em que o estresse ocorre é determinante. “Exposições ambientais em períodos críticos do desenvolvimento podem ‘programar’ de forma duradoura a estrutura e o funcionamento de sistemas biológicos, influenciando o risco de doenças ao longo de toda a vida”, explica.
Para o autor, os resultados podem contribuir para a compreensão de fenômenos emocionais e comportamentais em humanos, além de trazer implicações para o manejo de animais utilizados como modelos em pesquisas. “Imagine um pesquisador testando uma droga que trata o diabetes ou a síndrome metabólica em ratos”, exemplifica. “Em princípio, todos os ratos testados deveriam ser iguais em termos de metabolismo, mas, por conta da falta de cuidado padronizado durante o período crítico, alguns ratos podem ter tendência maior do que outros a desenvolver diabetes, interferindo diretamente no resultado do experimento”, argumenta, destacando a importância dos achados.
A equipe pretende, agora, ampliar as investigações, combinando diferentes fatores de estresse no mesmo animal para simular situações mais próximas das vividas por humanos. “Crianças que sofrem abuso, abandono ou falta de amparo muitas vezes também enfrentam pobreza e desnutrição”, explica o pesquisador. “Quando combinamos a separação materna com um modelo de empobrecimento ambiental, observamos uma potencialização dos efeitos de ansiedade e depressão”, antecipa. Os novos resultados ainda estão em fase de publicação e devem, segundo Ferraz, orientar estudos futuros que busquem prevenir ou reverter os efeitos do estresse neonatal por meio de intervenções como atividade física, medicamentos e enriquecimento ambiental.
