24 de abril de 2026 Foto: Bimbim Sindu / Pexels
Medicina e Saúde
Consumo de álcool aumenta em 6,5x chance de novos fumantes, especialmente entre jovens e população negra

Highlights

  • Consumo de álcool foi o principal preditor de iniciação do tabagismo durante a pandemia: quem bebia mais tinha chance 6,5 vezes maior de começar a fumar.
  • Jovens adultos entre 18 e 29 anos foram o grupo com maior incidência de novos casos; pessoas solitárias e população negra também tinham mais risco
  • Tabagismo no Brasil não voltou ao patamar pré-pandemia, e a pressão da indústria por legalização de vapes e cigarros eletrônicos ameaça agravar o quadro.

O tabagismo se intensificou no Brasil durante a pandemia de Covid-19, sem voltar ao patamar de antes. O número subiu de 10,35% da população que fumava para 15,88% no ápice da crise e fixou-se em 12,2% no pós-pandemia. Os achados são de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), liderados por Deborah Carvalho Malta, publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia.

O estudo epidemiológico usou os dados da “ConVid 2 — Pesquisa de Comportamentos”, coletados entre julho e dezembro de 2023. A metodologia foi a amostragem em cadeia virtual (Respondent Driven Sampling — RDS), técnica na qual os participantes recrutam novos participantes a partir de suas próprias redes de contatos online.
Malta explica que jovens adultos entre 18 e 29 anos foram os mais vulneráveis a começar a fumar, possivelmente pelo elevado sofrimento experimentado por essa faixa etária durante a pandemia, como a falta de interação com amigos, o isolamento social e a menor capacidade de lidar com situações estressoras. Pessoas sem companheiro(a) também aparecem entre os mais vulneráveis, uma vez que o(a) parceiro(a) tende a funcionar como fonte de apoio e suporte social. Já a população negra tende a fumar mais por razões socioeconômicas e pelo impacto do racismo; menor acesso a apoio psicossocial e maior exposição a situações de estresse ao longo da vida.

“Há uma associação importante entre o cigarro e a saúde mental. O cigarro acaba sendo usado quase como uma muleta em situações de estresse para manter a estabilidade emocional”, diz Malta.
O trabalho também demonstra que o aumento do consumo de álcool foi o fator com maior poder de predição para quem passou a fumar durante a pandemia — quem bebia mais tinha chance 6,5 vezes maior de começar a fumar. O estudo sugere ainda a necessidade de ações integradas que unam saúde mental e controle do tabaco, servindo como alerta contra retrocessos nas metas de saúde de 2030, especialmente diante da pressão da indústria para a liberação de novos produtos.

“Acendemos o sinal amarelo, pois o tabagismo voltou a crescer no Brasil, especialmente entre jovens e adolescentes, impulsionado por esses novos produtos. Precisamos avançar na regulação, punição das redes sociais que vendem ilegalmente, fiscalização e campanhas educativas”, afirma Malta.

Por fim, os pesquisadores indicam que as próximas investigações devem focar no impacto dos novos produtos de tabaco, como vapes e cigarros eletrônicos, uma vez que a popularização desses dispositivos e a ausência de indicadores específicos sobre eles no estudo atual limitaram uma análise mais profunda de sua influência na iniciação ao tabagismo.

 

DOI: https://doi.org/10.1590/1980-220X-REEUSP-2025-0287en

Termos de uso

Todos os releases sobre as pesquisas nacionais já publicados na área aberta da Bori (e que, portanto, não estão sob embargo) podem ser reproduzidos na íntegra pela imprensa, desde que não sofram alterações de conteúdo e que a fonte Agência Bori seja mencionada.

Veja como citar a BORI quando for publicar este artigo:

Fonte: Agência Bori


Ao usar as informações da Bori você concorda com nossos termos de uso.

Publicado na Bori em 24/4/2026, 23:45 – Atualizado em 30/4/2026, 10:46