1 de maio de 2026 Foto: Foto de Divulgação
Ciência
Dexosarcophaga papia, uma das três novas espécies de moscas descritas pelo projeto SISBIOTA-Diptera. As imagens mostram o espécime macho em vista lateral e dorsal. Barras de escala = 1 mm.

Highlights

  • Estudo descreve três novas espécies de moscas da família Sarcophagidae, incluindo uma inédita no gênero Rettenmeyerina;
  • Descobertas ampliam o conhecimento sobre a importância do papel ecológico e forense desses insetos; 
  • Resultados reforçam a necessidade de conservar biomas pouco estudados e investir em pesquisas sobre a biodiversidade.

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Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou a descoberta de três novas espécies de moscas da família Sarcophagidae, grupo importante para o equilíbrio dos ecossistemas e com aplicações inclusive na investigação forense. A pesquisa integra o projeto SISBIOTA-Diptera, uma das maiores iniciativas já realizadas no país para mapear a biodiversidade de insetos em biomas ameaçados na Amazônia, Cerrado e Pantanal, envolvendo uma ampla rede de pesquisadores.

Entre as três novas espécies até então desconhecidas pela ciência, destaca-se uma nova espécie do gênero Rettenmeyerina, que anteriormente contava com apenas um representante conhecido e de distribuição restrita. Outra espécie recebeu o nome de “aenigmatica”, em referência às suas características morfológicas incomuns. “O fato de encontrarmos uma nova espécie em um gênero tão pouco conhecido foi algo que chamou bastante a atenção da equipe”, destaca a biológica Marina Morim Gomes, pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro, com mestrado e doutorado em Zoologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e principal autora do estudo.

As descobertas reforçam o quanto ainda há a ser conhecido sobre a biodiversidade brasileira, especialmente em regiões menos estudadas. “Essas áreas ainda são pouco amostradas, o que indica que há muitas outras espécies a serem descobertas”, explica a pesquisadora. Para Gomes, o registro da biodiversidade é essencial em um cenário de mudanças climáticas e pressão humana sobre os ambientes naturais. “Uma das maiores preocupações dos taxonomistas é dimensionar a biodiversidade atual para que possamos traçar estratégias de conservação e evitar a extinção de espécies”, revela.

As moscas da família Sarcophagidae desempenham funções fundamentais nos ecossistemas, atuando principalmente na decomposição de matéria orgânica animal, contribuindo para a reciclagem de nutrientes. Sem esses organismos, esse material se acumularia no ambiente e deixaria de ser reintegrado à cadeia alimentar. Além disso, o grupo possui relevância na entomologia forense, área que utiliza insetos para auxiliar investigações criminais.

O estudo, publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, faz parte de um levantamento realizado entre agosto de 2011 e fevereiro de 2013, em diferentes regiões do país. Esse tipo de abordagem permite não apenas identificar novas espécies, mas compreender como as populações variam ao longo do tempo. “Pesquisas contínuas possibilitam monitorar mudanças relacionadas ao clima e a impactos ambientais, além de reunir grandes equipes e ampliar a área de estudo”, afirma Gomes.

A coleta dos insetos foi realizada com diferentes tipos de armadilhas, incluindo as chamadas Malaise e Van Someren, além de coletas diretas em campo. Já a identificação das espécies exigiu análise detalhada das características morfológicas, com auxílio de microscópios de alta precisão e sistemas de fotografia avançados. Esse processo é considerado minucioso e demorado, o que contribui para o chamado “gargalo taxonômico” – a dificuldade de descrever a enorme diversidade de espécies existentes com o número limitado de especialistas.

Outro desafio enfrentado pela equipe foi o incêndio do Museu Nacional do RJ, em 2018, que resultou na perda de parte do material e da coleção de referência. Ainda assim, os pesquisadores conseguiram dar continuidade ao trabalho, reforçando a importância de investimentos contínuos em ciência e infraestrutura.

As três espécies descritas foram consideradas raras dentro do universo analisado, tendo sido encontradas em número reduzido de exemplares e apenas em áreas bem preservadas. Esse dado acende um alerta sobre a conservação desses ambientes. “Precisamos de mais incentivos e políticas públicas voltadas à preservação dos biomas, especialmente aqueles sob maior pressão”, ressalta Gomes.

Ainda há um vasto material coletado pelo projeto aguardando análise, o que indica que novas descobertas devem surgir nos próximos anos. “O conhecimento das espécies é o primeiro passo para entendermos o seu papel ecológico e suas possíveis aplicações. Ainda temos muito a descobrir”, conclui a principal autora.

Os pesquisadores Josenilson Rodrigues dos Santos, Marco Antônio Menezes e Márcia Souto Couri, todos com formação em Zoologia pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, também assinaram o artigo. O projeto SISBIOTA-Diptera e o laboratório do Museu Nacional do RJ receberam auxílio do CNPQ e da FAPERJ para a realização deste estudo.

Lepidodexia aenigmatica, outra das três novas espécies de moscas descritas pelo projeto SISBIOTA-Diptera. O nome, que vem do grego e significa “enigmática”, é uma referência à complexidade incomum de suas estruturas morfológicas. As imagens mostram o espécime macho em vista lateral e dorsal. Barras de escala = 1 mm.

Rettenmeyerina guidae, uma das três novas espécies descritas pelo projeto SISBIOTA-Diptera; as imagens mostram o espécime macho em vista dorsal e lateral, com detalhe da cabeça em vista lateral (escala: 2 mm). Barras de escala = 1 mm

DOI: https://doi.org/10.1590/0001-3765202620250511

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 1/5/2026, 23:45