Para estimular a gestão ambiental e o turismo responsável em praias de todo o mundo, uma fundação internacional criou o programa Bandeira Azul, que reconhece praias que atendem a critérios de qualidade ambiental, segurança, infraestrutura e educação ambiental. No Brasil, a percepção de diferentes atores envolvidos – de gestores a moradores –, é de que a iniciativa tem exercido uma influência positiva no turismo, na qualidade dos serviços e na gestão ambiental nas praias que integram a iniciativa. Porém, os bons resultados exigem que os municípios mantenham rotina administrativa, orçamento, equipe técnica e fiscalização contínua das ações.
É o que aponta artigo publicado na sexta (22) na revista Ambiente & Sociedade por pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense, da Universidade Positivo e do Instituto de Desenvolvimento Educacional da Fundação Getulio Vargas.
A partir de abordagem qualitativa, a equipe analisou documentos públicos e privados, registros fotográficos e realizou 54 entrevistas em profundidade com diferentes atores envolvidos na gestão de 16 praias certificadas nas regiões Sudeste e Sul do país. Foram ouvidos gestores públicos, administradores de praias, comerciantes, moradores, turistas, representantes de associações e pesquisadores. O estudo contemplou praias em estágio avançado de implementação do programa, que se concentram nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Santa Catarina.
Segundo o artigo, o programa funciona como um organizador da gestão local ao estabelecer critérios relacionados à qualidade ambiental – como o controle de qualidade da água e a correta gestão de resíduos –, além de infraestrutura, segurança, acessibilidade e educação ambiental. Os impactos também são percebidos na economia local e na valorização da imagem dos destinos, além da percepção de aumento da conscientização ambiental dos frequentadores e da população.
No entanto, a conquista do selo é apenas uma etapa. “O selo, sozinho, não transforma a praia. O que transforma é o processo necessário para conquistá-lo e mantê-lo”, afirma a arquiteta e urbanista Luíza Chiarelli Barbosa França, doutora em Gestão Ambiental pela Universidade Positivo e uma das autoras do estudo.
A necessidade de articulação entre diferentes áreas da gestão pública (meio ambiente, turismo, saúde, educação e obras) aparece como um fator crítico. Além disso, há desigualdades regionais importantes: municípios com mais recursos e experiência tendem a cumprir os critérios com maior facilidade, enquanto outros enfrentam limitações técnicas e financeiras.
Outro ponto de atenção é o risco de o selo ser utilizado apenas como estratégia de marketing. “Todo selo pode se tornar mais simbólico do que efetivo quando é tratado apenas como vitrine. O Bandeira Azul precisa ser entendido como processo contínuo, não como ponto de chegada”, ressalta França.
O estudo ainda aponta divergências na literatura internacional sobre a eficácia do programa. Em países com gestão costeira mais estruturada, o impacto tende a ser mais limitado. Já no Brasil, o selo pode induzir práticas básicas, porém fundamentais, de organização e cuidado ambiental. A expectativa é que os turistas brasileiros passem a exigir, cada vez mais, práticas concretas de sustentabilidade nos destinos.
Diante desse cenário, o artigo recomenda o fortalecimento da educação ambiental, a revisão de critérios para considerar especificidades brasileiras e a garantia de maior apoio técnico e financeiro aos municípios. A participação da sociedade civil surge como elemento central nesse processo. “A colaboração entre governo, setor privado e comunidades é fundamental. O programa se fortalece quando deixa de ser uma ação isolada da prefeitura e passa a ser um compromisso coletivo”, afirma a autora. A expansão do programa para outras regiões também é apontada como um caminho relevante, mas que exige adaptação à diversidade geográfica e social do litoral brasileiro.
Por fim, a pesquisa abre caminhos para novos estudos, como a comparação entre praias certificadas e não certificadas, o acompanhamento de indicadores ao longo do tempo e a ampliação da análise para regiões como Norte e Nordeste. “O desafio é avançar na ampliação do programa, engajar mais atores e garantir que a certificação represente uma prática real de gestão ambiental”, conclui a pesquisadora.
