12 de maio de 2026 Foto: Craig Adderley / Pexels
Genética
Cuidado materno: estudo sugere relação entre saúde bucal da mãe e desenvolvimento de lábio leporino em bebês

Highlights

  • Estudo com participação da USP, UFRJ e do Einstein Hospital Israelita  aponta diferenças no conjunto de bactérias presentes na boca de mães de bebês com lábio leporino
  • Achados sugerem uma possível associação entre a saúde bucal materna e o desenvolvimento da malformação no bebê
  • Conclusões podem abrir caminho para o aprimoramento de protocolos de saúde bucal na gestação, com foco na prevenção de condições inflamatórias

O microbioma oral materno – conjunto de bactérias presentes na boca da mãe – pode influenciar o desenvolvimento da fissura lábio-palatina, conhecida como lábio leporino, em bebês. É o que indica um estudo publicado na PeerJ. A pesquisa, que reúne cientistas da Universidade de São Paulo (USP), da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, da Universidade Cruzeiro do Sul, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas em San Antonio (EUA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pode ser um passo inicial para guiar o desenvolvimento de novas estratégias preventivas para a condição, incluindo orientações focadas na saúde bucal materna.

Para investigar a possível influência das bactérias bucais maternas no desenvolvimento do lábio leporino, a equipe mapeou os microrganismos do microbioma bucal de 70 mães entre 2015 e 2019. Destas, 34 tiveram bebês com fissuras no lábio e no céu da boca e 36 deram à luz crianças sem a condição. Amostras de saliva e exames clínicos serviram como base para as análises. Os pesquisadores também consideraram fatores como sexo do bebê, infecção urinária materna, gengivite, cáries, hipertensão gestacional, uso de antibióticos e idade da criança no momento do trabalho.

Os resultados mostram que a composição do microbioma oral materno difere entre mães de bebês com e sem fissuras lábio-palatinas. Em especial, foi observada maior presença de bactérias associadas a infecções oportunistas, como aquelas que podem se proliferar em situações de lesões bucais, entre mães de bebês com a malformação. “Durante a gravidez, alterações hormonais aumentam a predisposição à inflamação bucal, o que pode facilitar a entrada dessas bactérias na corrente sanguínea da mãe e desencadear uma resposta inflamatória”, diz Maria Rita Passos-Bueno, pesquisadora do Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH) e do Instituto de Biociências (IB) da USP e autora do estudo. Ela explica que substâncias inflamatórias produzidas pelo organismo materno podem alcançar a placenta e o feto, enviando sinais biológicos capazes de interferir no funcionamento dos genes do bebê – inclusive em processos essenciais para a formação do rosto. “O efeito mais provável não é a passagem direta dos microrganismos para o bebê, mas, sim, um impacto indireto mediado pela inflamação materna”, destaca.

As conclusões também indicam diferenças conforme o sexo do bebê. Em gestações de meninos, bactérias associadas à redução de inflamações estavam menos presentes em mães de bebês com lábio leporino, sugerindo uma perda de proteção contra processos inflamatórios. Segundo o estudo, isso pode estar ligado a diferenças no desenvolvimento fetal: enquanto fetos masculinos tendem a priorizar o crescimento rápido, possivelmente com uma resposta imune menos robusta, fetos femininos investem mais em imunidade e reservas energéticas.

A condição, que afeta cerca de 1 a cada 1.000 nascidos, é multifatorial e acarreta desafios tanto para a criança como para a família e para o sistema de saúde, como a introdução de terapias da fala, tratamentos odontológicos e cirurgias. Os achados podem representar um primeiro passo para ampliar a compreensão das causas da malformação e aprimorar estratégias de prevenção. “Se a disbiose da microbiota oral é realmente uma das causas e se ela é provocada por problemas de higiene bucal ou por dificuldade de acesso aos tratamentos, então fatores sociais também contribuem para o desenvolvimento do lábio leporino”, avalia João Carlos Setubal, pesquisador do Instituto de Química (IQ) da USP e do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3).

A equipe pretende, agora, aprofundar as investigações e seguir contribuindo para o desenvolvimento de protocolos de saúde bucal mais eficazes durante a gestação, com potencial para reduzir a prevalência de fissuras nos lábios e no céu da boca. “O ideal seria estudar e acompanhar gestantes durante o pré-natal, com exames de imagem que permitam identificar precocemente casos de fissura lábio-palatina”, diz Passos-Bueno. “Também seria importante repetir o estudo com amostras do microbioma oral das mães durante a gestação e fortalecer programas de saúde com cuidados com a saúde bucal materna, especialmente em populações de baixa renda”, conclui Setubal.

 

DOI: https://doi.org/10.7717/peerj.21128

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 12/5/2026, 15:30