A restauração de florestas e outros ecossistemas degradados precisa deixar de ser uma tarefa técnica para alcançar resultados ambientalmente eficazes e socialmente justos. É o que defende um novo estudo publicado na revista científica internacional People and Nature, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da britânica Nottingham Trent University e colaboradores.
Segundo os autores, os atuais programas de recuperação ambiental frequentemente ignoram contextos culturais, históricos e políticos dos territórios, o que pode reproduzir desigualdades e afastar populações locais das decisões sobre o futuro das áreas restauradas.
O trabalho propõe a adoção da chamada restauração biocultural, uma abordagem que incorpora, desde o planejamento até a gestão de longo prazo dos projetos, os conhecimentos tradicionais, os significados culturais atribuídos à paisagem e as relações de poder presentes em cada território. Em vez de considerar as comunidades apenas como beneficiárias ou executoras das ações, a proposta coloca povos indígenas e comunidades locais no centro dos processos decisórios.
Para construir esse arcabouço conceitual, os pesquisadores reuniram evidências e discussões teóricas de diferentes áreas do conhecimento relacionadas à conservação da biodiversidade, governança ambiental e justiça socioecológica. O modelo apresentado se apoia em três pilares principais: a ecologia política, que ajuda a identificar desigualdades de poder; as biografias da paisagem, que investigam como processos humanos e naturais moldaram os territórios ao longo do tempo; e o conhecimento ecológico tradicional, que valoriza saberes desenvolvidos por populações locais sobre o manejo da natureza.
Os autores argumentam que essa mudança de perspectiva pode gerar benefícios que vão além da recuperação da biodiversidade. Ao considerar valores culturais e formas locais de relação com a terra, os projetos de restauração podem fortalecer a segurança alimentar, a autonomia econômica e a identidade cultural das comunidades envolvidas. A abordagem também pode reduzir conflitos sociais e aumentar a permanência dos resultados ambientais no longo prazo.
O estudo também destaca a importância das chamadas Espécies Culturalmente Chave, plantas e animais que ocupam papel central na alimentação, espiritualidade, medicina ou identidade de determinados grupos sociais. Restaurar essas espécies pode favorecer simultaneamente a recuperação ecológica dos ecossistemas e a manutenção de práticas culturais tradicionais, criando benefícios compartilhados entre conservação e desenvolvimento local.
Para o pesquisador Felipe Melo, autor principal do artigo, a restauração ecológica precisa reconhecer explicitamente sua dimensão política. “A restauração ecológica é um ato inerentemente sociopolítico. Quando tratada apenas como um remendo tecnológico, ela pode, sem querer, reforçar desequilíbrios históricos e ignorar o valor real que a terra possui para quem nela vive”, afirma. Segundo os autores, o próximo passo é transformar esse marco conceitual em práticas concretas capazes de orientar políticas públicas, projetos de conservação e iniciativas globais de restauração durante a atual Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas.

