O Brasil exportou, apenas em 2023, mais de 574 mil toneladas de farinhas e gorduras de origem animal. Embora o número impressione, a maior parte desse montante é subutilizada como ração de baixo valor comercial. O desperdício é técnico e biológico: cerca de 37% do peso de cada ave abatida é composto por subprodutos que escondem um tesouro nutricional ainda ignorado pela mesa dos brasileiros.
Um novo estudo brasileiro, publicado na revista Ciência Rural, revela que o uso de tecnologias limpas pode converter esse descarte em insumos nobres. A pesquisa, conduzida pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), detalha que partes como penas, que compõem 7% do peso da ave, possuem uma concentração de 85% de proteína bruta, composta principalmente por queratina.
Para extrair esse potencial sem poluir, a ciência aposta na hidrólise enzimática e no uso de ultrassom. Esses métodos permitem quebrar a dureza das penas e ossos para recuperar colágeno e peptídeos bioativos sem deixar resíduos químicos. “As penas e os pés deixam de ser um problema de descarte para se tornarem fontes de colágeno de alta qualidade para cosméticos”, explica a pesquisadora Mônica Voss.
A relevância do dado vai além da indústria: os ossos, que representam 15% da carcaça, são reservas de cálcio e ácidos graxos essenciais que podem fortificar alimentos populares. No campo ambiental, a estratégia de desperdício zero ataca o problema das emissões de gases estufa e da contaminação de solos por descarte incorreto. Ao transformar o que sobra em ingredientes funcionais, o Brasil deixa de apenas reciclar resíduos para liderar uma nova fronteira da bioeconomia sustentável.
