A fragmentação do bioma Pampa ameaça diretamente a sobrevivência do tuco-tuco-do-lami (Ctenomys lami), pequeno roedor subterrâneo que só existe nessa região e está ameaçado de extinção. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e instituições parceiras mostra que a conectividade entre fragmentos de campo nativo é o principal fator para a persistência da espécie. O trabalho foi publicado na revista Mammalia na quarta (27).
A pesquisa revisitou 28 áreas históricas de ocorrência da espécie e constatou que apenas oito subpopulações persistem, enquanto 15 desapareceram, principalmente em razão de mudanças no uso da terra, como plantações de soja, silvicultura, urbanização e obras de infraestrutura. Além disso, a área de ocorrência da espécie sofreu uma redução de 17% nas últimas décadas, e atualmente menos da metade do habitat potencial dentro dessa área ainda está disponível.
“Mais do que a quantidade total de campos nativos, o que realmente explica a sobrevivência do tuco-tuco-do-lami é a conectividade entre os fragmentos”, explica Thamara Santos de Almeida, primeira autora do estudo. “Isso significa que estratégias de conservação precisam priorizar a restauração e o manejo de corredores de vegetação que liguem as populações remanescentes”.
A espécie ocorre apenas em campos arenosos em três municípios próximos à capital, Porto Alegre, e depende de áreas contínuas de vegetação campestre para sobreviver. Sua baixa capacidade de dispersão e forte especialização de habitat tornam a espécie altamente vulnerável a alterações na paisagem.
Embora o estudo tenha foco nessa espécie emblemática, ele também joga luz sobre a situação crítica do bioma Pampa como um todo. Entre 1985 e 2022, segundo o MapBiomas, o Pampa gaúcho perdeu quase 3 milhões de hectares de vegetação nativa, o que equivale a uma redução de 30% em quatro décadas. Esse processo tem ameaçado não apenas o tuco-tuco-do-lami, mas também uma biodiversidade única, considerada uma das maiores por metro quadrado do Brasil.
Os pesquisadores defendem a criação e ampliação de áreas protegidas que contemplem a distribuição atual da espécie, além de medidas de restauração de campos nativos. “O Pampa é um bioma invisível nas políticas públicas, mas sua biodiversidade não pode mais ser ignorada”, conclui Almeida.
