12 de dezembro de 2025 Foto: Reprodução
Ambiente
Registro de morcego bebendo água de pia empoçada; sódio, presente no sal de cozinha, é nutriente raro na natureza

Highlights

  • Estudo do Inpa descreve comportamento inédito: morcegos frugívoros se reúnem em poças de efluentes domésticos na Amazônia Ocidental
  • A causa é a busca por sódio, mineral escasso no ambiente natural que se torna abundante nos resíduos de cozinha
  • Cientistas alertam para o alto risco de transmissão de vírus e patógenos de animais domésticos e humanos para os morcegos

A Amazônia é conhecida por sua vasta biodiversidade, mas o ambiente, rico em água, é historicamente carente de minerais essenciais como o sódio. É nessa contradição que se insere uma descoberta inédita de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que liga o destino dos efluentes humanos à sobrevivência da vida selvagem.

O artigo, publicado na Acta Amazonica, descreve uma cena incomum: agregações de morcegos frugívoros descendo para beber em poças formadas por efluentes domésticos,  basicamente, a água suja que sai do ralo da pia da cozinha, contendo restos de comida e sabão. Esse comportamento revela que a escassez de minerais no ambiente natural está forçando a fauna a buscar esses recursos nos resíduos humanos.

Segundo o pesquisador William Magnusson, do Inpa, o problema é mais acentuado no oeste da Amazônia. “As plantas não utilizam sódio, mas os animais são dependentes dele. Na região oeste da Amazônia, onde o sódio é escasso, a água que vai para a atmosfera é deficiente nesse mineral. É por isso que abelhas vêm e pousam nas pessoas para lamber o suor, pois ele contém sal”.

O estudo sugere que, assim como outros mamíferos e aves buscam barreiros naturais ricos em minerais, os morcegos estão se acumulando nos ralos de cozinha para acessar o sódio, que é abundante no sal utilizado no preparo dos alimentos e na lavagem de panelas.

Essa proximidade, contudo, gera um alerta de saúde: o alto risco de “spillback”, ou seja, a transmissão de patógenos de humanos ou animais domésticos para a fauna selvagem.

“Essa situação, onde se tem muitos indivíduos de diferentes espécies bebendo nos dejetos da cozinha, que também são usados por galinhas, porcos e cachorros, aumenta bastante o risco de um vírus ou outro patógeno ser transmitido de humanos e animais domésticos para os morcegos”.

Os cientistas se preocupam mais com a transmissão dos animais domésticos para os morcegos, pois as espécies silvestres não têm esse contato no seu habitat e podem ser vulneráveis a doenças comuns em criações de animais.

O pesquisador explica que a solução é estrutural e simples: evitar que a água da pia fique empoçada a céu aberto. “É muito simples. Normalmente, há um cano que desce da cozinha. Basta enterrá-lo um pouco no chão. Assim, você não forma o poço e não atrai os morcegos para esse ponto”.

Para o pesquisador, medidas como essa são fundamentais para reduzir a aproximação não natural entre as espécies, que representa uma ameaça silenciosa para a biodiversidade local. “Nós devemos tentar minimizar o risco ao máximo”, diz

 

DOI: https://dx.doi.org/10.1590/1809-4392202501061

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 12/12/2025, 23:45