A claridade artificial das cidades engole o ciclo natural da noite e desorienta animais silvestres que precisam da escuridão para caçar, se reproduzir e escapar de ameaças. A supressão do escuro afeta agressivamente a fauna do semiárido piauiense, onde 60% das espécies de anfíbios avaliadas restringem suas atividades para os períodos lunares de menor luminosidade, revela uma pesquisa recém-publicada na revista Brazilian Journal of Biology, realizada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a ONG Bioma.
A equipe monitorou a rotina de animais durante 13 meses consecutivos no município de Floriano (PI), região que atua como uma fronteira de transição ecológica entre a caatinga e o cerrado. Os pesquisadores registraram 1.921 indivíduos de 12 espécies diferentes e cruzaram as aparições com a taxa de albedo lunar, índice que mede a quantidade de luz solar refletida pela Lua para a superfície da Terra. Os dados confirmam que a penumbra opera como um gatilho essencial para a atividade externa e a sobrevivência de sapos e rãs nativos.
“Confirmamos que a maioria das espécies prefere agir nas noites mais escuras. Embora a fuga de predadores seja uma hipótese plausível, ainda precisamos de testes experimentais isolados para afirmar categoricamente se a causa principal é a predação ou outros fatores”, explica o pesquisador Jonas Pederassi.
O levantamento de campo mapeou também exceções que escancaram o risco da adaptação forçada da fauna aos espaços urbanizados. A perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), única espécie analisada com preferência marcante pela luz da lua cheia, encontra nas cidades uma armadilha de fartura. Por um lado, a iluminação pública concentra nuvens densas de insetos, oferecendo um banquete fácil que arrasta as pererecas para o asfalto. Por outro, surgem outros riscos.
“No primeiro momento, podemos achar que isso é benéfico, já que ela é um predador natural de insetos. O que se observa comumente, no entanto, é o aumento da taxa de atropelamentos, além da exposição a gatos e cachorros das espécies atraídas para ambientes periurbanos e urbanos”.
O diagnóstico forjado por um ano de observação na natureza estabelece um cenário de referência inédito para a conservação das espécies no Nordeste. Compreender com exatidão quais animais dependem da escuridão absoluta instrumentaliza gestores ambientais para o desenho de planos de manejo em unidades de conservação e impulsiona a adoção de diretrizes de iluminação pública ecológica. A aplicação prática desse conhecimento científico exige agora a formulação de leis municipais específicas para frear o impacto luminoso e construir cidades sustentáveis.


