4 de novembro de 2025 Foto: Divulgação
ArqueologiaFragmento de calcedônia identificado no sítio arqueológico Namorotukunan, no noroeste do Quênia, datado entre 2,75 e 2,44 milhões de anos
Lâminas de pedra afiadas feitas com sílex e calcedônia encontradas em sítio arqueológico no Quênia (Divulgação)

Highlights

  • Ferramentas descobertas no Quênia têm entre 2,75 e 2,44 milhões de anos e pertencem à tradição Olduvaiense, uma das mais antigas conhecidas.
  • Estudo internacional publicado na Nature Communications revela continuidade tecnológica por cerca de 300 mil anos, mesmo com mudanças climáticas extremas.
  • As pedras cortantes eram usadas para processar carne e vegetais, evidenciando dietas mais amplas entre os primeiros hominíneos, mostra estudo que contou com pesquisadores de 13 países, incluindo o Brasil.

Mesmo diante de incêndios recorrentes, longos períodos de seca e mudanças radicais no ambiente, os primeiros hominíneos (primatas ancestrais dos humanos) do Quênia mantiveram a mesma tecnologia de ferramentas de pedra por cerca de 300 mil anos. Lâminas eram feitas com calcedônia, rocha rara e ideal para itens afiados, e mostram escolha intencional e habilidade técnica. 

É isso o que mostra um estudo internacional publicado na Nature Communications, que identifica no sítio arqueológico Namorotukunan, no noroeste do país, um dos registros mais longos e antigos da chamada tecnologia Olduvaiense, datada de 2,75 a 2,44 milhões de anos atrás.

As ferramentas — afiadas com precisão e usadas para cortar carne e vegetais — revelam uma impressionante consistência técnica entre gerações. Para os autores, isso indica que o domínio do corte e a transmissão de conhecimento já eram práticas consolidadas há quase três milhões de anos.  

A escolha sistemática desse material indica conhecimento técnico e geológico refinado, mostrando que esses grupos sabiam identificar e selecionar as melhores pedras para obter lâminas mais precisas e duráveis. Essa seleção criteriosa revela não apenas habilidade prática, mas também planejamento e transmissão de conhecimento entre gerações, explica  Dan V. Palcu Rolier, autor correspondente do estudo, ligado ao Instituto de Geociências da USP, ao GeoEcoMar (Romênia) e à Universidade de Utrecht (Holanda).

A equipe chegou às novas datas combinando métodos geológicos: análise de cinzas vulcânicas, assinaturas químicas das rochas e variações magnéticas registradas nos sedimentos. Esses indicadores permitiram reconstituir o ambiente do Plioceno, um período em que o vale do Turkana passou de planície úmida e fértil a um cenário árido e instável.

Durante essas transformações, os fabricantes das ferramentas se adaptaram, mas sem abandonar sua tradição técnica. “Namorotukunan oferece uma janela rara para um mundo em transformação — rios que mudavam de curso, incêndios se alastrando, a aridez se instalando — e as ferramentas, inabaláveis. Por cerca de 300 mil anos, o mesmo ofício persistiu. Talvez aí estejam as raízes de um dos nossos hábitos mais antigos: usar tecnologia para nos equilibrar diante da mudança”, afirma Rolier. 

As evidências também sugerem um marco evolutivo importante: o uso de ferramentas para ampliar a dieta, incluindo carne e medula óssea, conferiu aos hominíneos uma vantagem de sobrevivência em tempos de instabilidade climática. “O registro fóssil das plantas conta uma história incrível: a paisagem passou de pântanos exuberantes a campos secos varridos pelo fogo. À medida que a vegetação mudava, a confecção de ferramentas se mantinha firme. Isso é resiliência”, comenta Rahab Kinyanjui, do Museu Nacional do Quênia, também autor do trabalho.

O estudo foi conduzido por pesquisadores de instituições do Quênia, Etiópia, Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Índia, Holanda, Portugal, Romênia, Espanha, África do Sul e Reino Unido. No Brasil, o trabalho contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

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DOI: https://doi.org/10.1038/s41467-025-64244-x

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 4/11/2025, 23:45