5 de outubro de 2020 Foto: National Cancer Institute / Unsplash

Por Jadel Müller Kratz

Com vários estudos clínicos de fase III avaliando candidatos à vacina contra o vírus SARS-CoV-2, cresce a expectativa por resultados positivos, e se fortalece a visão de que as vacinas deveriam ser tratadas como bem público global. No âmbito desse debate, a transparência e a coordenação da pesquisa e desenvolvimento (P&D) surgem como elementos-chave dos esforços de colaboração internacional que visam garantir a ampla disponibilização de vacinas, tratamentos e testes diagnósticos.

A emergência da Covid-19 alavancou o financiamento para a P&D global, com grande protagonismo dos governos. Porém, a análise a posteriori mostra que parte dos esforços foi desorganizada e concentrada em torno de poucas alternativas. Inúmeros pequenos estudos conduzidos de forma isolada se mostraram incapazes de gerar informação de qualidade para guiar a tomada de decisão.

No caso do Brasil, o montante público investido em P&D para Covid-19, por volta de US$ 100 milhões, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ficou bastante aquém dos países desenvolvidos e da demanda da comunidade científica local. Neste momento, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) está em seu patamar mais baixo dos últimos anos. E embora o país tenha expertise histórico no desenvolvimento e na produção de vacinas, ainda carece de uma estratégia consistente e cientificamente embasada de enfrentamento à pandemia.

Nesse cenário, é crucial reivindicar melhor coordenação estratégica e sobretudo maior transparência acerca dos investimentos e custos envolvidos no processo de P&D e produção. Vacinas e medicamentos produzidos com recursos públicos, ainda que em parceria com a iniciativa privada, devem ser eficazes, seguros e disponibilizados à sociedade de maneira acessível.

A Covid-19, aquela que será conhecida como a primeira pandemia moderna, definirá a nossa era e moldará de forma significativa as próximas gerações. Será interessante avaliar no futuro próximo como aspectos pioneiros do combate ao coronavírus, como a agilidade no desenvolvimento de diagnósticos/tratamentos/vacinas, a expansão da telemedicina, e a explosão da ciência aberta, via publicação de resultados em preprints e mídias sociais, vão impactar o setor de inovação em saúde. Por outro lado, a clara desorganização e a forma desproporcional com que a Covid-19 impacta as comunidades mais pobres mostram que velhas lacunas permanecem.

Modelos de P&D colaborativos e focados nas necessidades dos pacientes, como o da DNDi*, já existem e tem se provado eficientes. Seus sucessos recentes mostram que a parceria entre governos, academia e indústria – e a desvinculação do custo de pesquisa do preço final dos medicamentos – pode acelerar o progresso da ciência e ampliar o acesso aos tratamentos.

Uma lição precisa ser aprendida: P&D robusto, colaborativo, transparente e focado nas necessidades dos pacientes não é apenas possível, mas é provavelmente a melhor estrutura para garantir que os resultados sejam gerados de forma rápida e eficiente, e que os produtos sejam amplamente acessíveis a todos aqueles impactados pela pandemia.

Sobre esse artigo

Jadel Müller Kratz é gerente de pesquisa e desenvolvimento da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) na América Latina.

 

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Publicado na Bori em 5/10/2020, 11:20 – Atualizado em 17/2/2021, 16:56