4 de abril de 2022 Foto: Mike Erskine / Unsplash

Por Mercedes Bustamante

Desde sua criação em 1988, com seu primeiro relatório publicado em 1990, o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (sigla em inglês, IPCC) vem avaliando e sintetizando o avanço do conhecimento científico sobre a mudança do clima, seus impactos e demandas para adaptação e soluções para a estabilidade do sistema climático global. Em agosto de 2021, foi publicado a primeira parte do sexto ciclo de avaliação do IPCC que sintetizou as bases físicas da mudança do clima, o estado atual e as projeções de mudanças em médio e longo prazo. Em março de 2022, tivemos acesso à segunda parte da avaliação que apresentou as informações atualizadas sobre os impactos que já se fazem sentir em todas as partes do mundo, acentuando vulnerabilidades e inequidades.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, no lançamento dos dois relatórios, referiu-se ao primeiro como um “alerta vermelho para a Humanidade” e ao segundo como um “atlas do sofrimento humano”. Tais comentários precisos sobre a dimensão do quadro atual e o que se configura para o futuro próximo sobre a mudança do clima colocam agora os holofotes sobre a terceira parte da avaliação a ser lançado na primeira semana de abril e que dirá qual espaço de soluções está disponível para manter uma trajetória de enfrentamento do aquecimento global condizente com a meta consensuada no Acordo de Paris.

A urgência de abordar soluções está claramente documentada nas contribuições do Grupo Consultivo para Crise Climática (CCAG), que reúne cientistas de diferentes regiões e áreas do conhecimento. O CCAG elucida uma estratégia baseada inicialmente em três ´R`: reduzir emissões, remover CO2 da atmosfera e reparar componentes do sistema climático próximos a um ponto de não-retorno (por exemplo, com a conservação da Amazônia, manutenção das superfícies congelados no Ártico). A estratégia foi acrescida por um quarto ´R´: resiliência. Como construir sociedades cujo desenvolvimento seja baseado em sustentabilidade e resiliência frente aos impactos de uma clima em transição.

O CCAG também reforça a necessidade de reconstruir a confiança entre os países no âmbito das negociações internacionais. A última Conferência da Partes (COP) da Convenção do Clima, em Glasgow, em 2021 avançou em alguns aspectos mas também demonstrou fraturas significativas, como financiamento para uma transição justa e apoio aos países e grupos sociais mais vulneráveis, que precisam urgentemente avançar
para em soluções concretas para com uma crise de tal magnitude. Já temos décadas de debates e negociações e o tempo que nos resta é exíguo para moldar a transformação que é necessária.

Um novo modelo de governança que reconheça os nossos desafios como humanidade mas também os diferenciados contornos locais para enfrentar este cenário deve ser estruturado. Os próximos anos – não mais décadas – serão definidores, em larga escala, do legado que passaremos aos mais jovens.

 

Sobre a autora

Mercedes Bustamante é bióloga professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e membro brasileira do Grupo Consultivo para Crise Climática (CCAG).

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Publicado na Bori em 4/4/2022, 23:45