13 de junho de 2020 Foto: Kaung Myat Min / Unsplash

Por Guilherme Casarões

Alguém que ouvisse que, em pouco mais de três meses, uma síndrome respiratória detectada no interior da China se transformaria em uma pandemia global, com milhões de infectados, centenas de milhares de mortes, confinamento em massa e sistemas de saúde colapsados, provavelmente pensaria se tratar de roteiro de filme apocalíptico.

Mas a realidade chegou arrasadora. Virou o mundo de ponta-cabeça, paralisou a economia, jogou bilhões de pessoas em isolamento involuntário e expôs as limitações de planejamento e resposta de governos, organizações internacionais e comunidade científica. No processo, a pandemia trouxe o que há de melhor, porém, sobretudo, de pior na natureza das relações internacionais.

Por se tratar de um problema genuinamente global, despertou uma fagulha de humanidade que há muito não se via, circulando pelas redes sociais em forma de músicas na janela, aplausos aos profissionais de saúde e demonstrações de solidariedade além-fronteiras. Vemos, igualmente, admiráveis esforços de ajuda humanitária e de cooperação científica entre países, corporações e universidades.

Os medos e as incertezas trazidos pela pandemia, por outro lado, escancaram a mesquinhez humana. Em vez de frear as disputas políticas, tanto dentro de países como entre eles, o vírus parece tê-las potencializado, na forma de arroubos de nacionalismo, xenofobia e conflitos.

A já prolongada rivalidade entre Washington, D.C., e Pequim teve novo capítulo na queda de braço sobre as origens da pandemia. Enquanto o governo Xi Jinping censura pesquisas científicas e cerceia críticas à condução da crise, Donald Trump popularizou a expressão vírus chinês, que vem suscitando episódios de racismo contra chineses, para responsabilizar o gigante asiático pela crise mundial.

A corrida pela sobrevivência resultou na interdição do comércio internacional, como o confisco de equipamentos de proteção individual e ventiladores realizado pelo governo americano. Após ver um carregamento de máscaras destinadas à polícia de Berlim ser desviado para os Estados Unidos, autoridades alemãs acusaram Trump de pirataria moderna. Casos semelhantes ocorreram com encomendas destinadas à França e ao Brasil.

Experimentos autoritários também floresceram na pandemia. Sob o pretexto da crise sanitária, o premier húngaro Viktor Orbán fechou o parlamento, suspendeu eleições e estabeleceu prisão para quem desrespeitar a quarentena ou espalhar boatos sobre a crise. Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, ameaçou atirar em quem saísse às ruas. Na Índia, a repressão virou expediente corriqueiro no desafio de manter mais de um bilhão de pessoas em suas casas.

Os últimos meses têm sido um duro choque de realidade a quem acredita na globalização virtuosa e inexorável. Teremos de nos acostumar, pelo menos nos próximos anos, com um mundo mais fechado, menos livre e mais desigual, em que governos ampliarão seu controle sobre o movimento de pessoas e o fluxo de bens e capital em nome do bem comum, o que também poderá servir para concretizar desejos autoritários.

Como garantir que as incertezas da pandemia não se transformem em um futuro distópico, em que ensaios totalitários se misturem à miséria e ao caos social? O caminho é reforçar o compromisso com a democracia, a ciência e a cooperação internacional. Instituições democráticas são a garantia de que a liberdade será preservada na tentativa de equacionar os dilemas sanitários e econômicos da crise. O conhecimento científico é o melhor antídoto para soluções milagrosas típicas do populismo autoritário, e organizações multilaterais revigoradas serão indispensáveis para o devido encaminhamento dos problemas que assolam, sem distinção, toda a humanidade.

 

Sobre esse artigo

Guilherme Casarões é docente da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP). Essa análise está na revista “GV Executivo” de 12 de junho.

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Publicado na Bori em 13/6/2020, 17:40 – Atualizado em 13/6/2020, 18:12