2 de maio de 2020 Foto: Domínio público
Canal do Panamá em construção, em 1910

Por Paulo Sandroni

O bater das asas de um morcego, ao ser capturado nas cercanias de Wuhan, não provocou um furacão no Caribe. Em compensação, desencadeou uma pandemia devastadora. Eis aí uma nova alegoria para a teoria do caos: pequena alteração nas condições iniciais provoca efeito gigantesco no desenlace de um processo. Cisne negro? Algo totalmente imprevisível? Na verdade, não. Neste início de século, já tivemos duas ou três epidemias, embora com efeitos muito menos impactantes do que a atual. A diferença é que sabemos perfeitamente o causador, a Covid-19, que se espalha com grande velocidade e ainda não contamos com remédio ou vacina para neutralizá-lo.

A luta contra a doença causa danos expressivos na economia: interrompe grandes cadeias produtivas, destrói empregos e, por conseguinte, reduz fluxos de renda, especialmente entre os mais pobres. Mas o dilema “salvar as pessoas ou a economia” não passa de um jogo de palavras. Simplesmente, não há dilema. Se as pessoas não forem salvas, a catástrofe na economia será inevitável.

Um exemplo ajuda-nos a perceber como é importante preservar vidas e manter as pessoas saudáveis. Durante a construção do Canal do Panamá, a febre amarela grassava na região. A picada de um mosquito significava sentença de morte. Dizimava sem distinção brancos, negros, pardos ou amarelos. Identificado o vetor, iniciou-se na região uma gigantesca campanha de saneamento que devorou centenas de milhares de dólares. A certa altura do combate, o coronel George Goethals, homem de porte atlético, comandante do projeto, chamou o dr. William Gorgas, médico-chefe das ações contra o mosquito, dizendo que não daria nenhum centavo a mais, pois cada mosquito eliminado havia custado dez dólares! A resposta do dr. Gorgas foi contundente: “Foi barato. Imagine se um desses mosquitos tivesse picado o senhor?”

A campanha sanitária prosseguiu, os focos do mosquito foram eliminados, a região livre da febre amarela tornou-se, mesmo antes da vacina, uma das mais seguras do mundo, e então foi possível concluir as obras do canal. A abertura reduziu o trajeto entre o Oceano Atlântico e o Pacífico em mais de 12 mil quilômetros, provocando efeito proporcional nos custos do transporte marítimo entre o Ocidente e o Oriente.

No caso atual, é interessante assinalar que mesmo governos de tendência não intervencionista, como o norte-americano, aprovaram o maior programa de salvamento de sua história. Se tivessem feito o mesmo em 1929, talvez a crise econômica não teria produzido tanta destruição. As ações de salvamento na crise de 2008 também deram resultados positivos e trouxeram bons ensinamentos. As iniciativas governamentais, inclusive as do destrambelhado governo brasileiro, de injetar, mesmo a fundo perdido, dinheiro e crédito para garantir a quarentena e evitar a contração da demanda chegam em boa hora. Alguns alertam que o déficit e a dívida pública vão aumentar. É verdade, mas é possível resolver isso depois. Caso contrário, o único emprego que aumentará será o de coveiros.

Uma sugestão para o day after: que os portadores de grandes fortunas contribuam voluntariamente para cobrir pelo menos parte do déficit em nome de uma recuperação mais rápida da economia.

Sobre esse artigo

Paulo Sandroni é docente da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP). Essa análise está na revista “GV Executivo” de 04 de maio.

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Publicado na Bori em 2/5/2020, 16:22 – Atualizado em 17/2/2021, 16:56