23 de outubro de 2025 Foto: Freepik
Adolescente segura o celular com expressão de tensão, simbolizando o impacto emocional da violência online e do cyberbullying
A violência online contra crianças e adolescentes vai além das telas: provoca medo, isolamento e impactos duradouros na saúde mental

Por Ana Ludmila Freire Costa

Os dados sobre a ocorrência da violência sexual online contra crianças e adolescentes têm chamado a atenção de pesquisadores, governantes, profissionais que lidam com esse público, assim como de familiares e responsáveis. Uma investigação conduzida em 2022 pelo projeto Disrupting Harm, formada por Unicef, Interpol e ECPAT (coalizão de organizações da sociedade civil) revelou que cerca de 20% das crianças de diversos países já sofreram exploração ou abuso sexual em ambiente digital. As denúncias de imagens de violência sexual infantil feitas no Portal da SaferNet Brasil cresceram 77% em 2023, em relação ao ano anterior — e esse aumento não é um caso isolado. 

No Brasil, a cada cinco crianças e adolescentes conectados, uma já vivenciou algum tipo de violência online, segundo o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). O Fórum Brasileiro de Segurança Pública também registrou aumento de 60% nas denúncias de crimes de exploração sexual infantil com uso de tecnologias digitais entre 2019 e 2023. 

A maior parte dos agressores é composta por homens adultos conhecidos das vítimas — o que reforça que o risco não se restringe ao “estranho na internet”, mas inclui relações de confiança e proximidade.

Os impactos emocionais podem envolver prejuízos na relação com o próprio corpo, baixa autoestima, preocupações com a imagem social, sintomas depressivos e automutilação não suicida. Importa ressaltar que tais consequências tendem a ser duradouras, afetando as crianças e adolescentes mesmo vários anos após a experiência da violência.

Diante desse cenário, um aspecto tem sido ofuscado na construção de estratégias para seu enfrentamento: o investimento em pesquisa científica. Países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália vêm consolidando tradição em pesquisa sobre o tema, com laboratórios e instituições voltadas à proteção digital de crianças, como o National Center for Missing & Exploited Children (EUA) e o eSafety Commissioner (Austrália), que integram dados de segurança pública, saúde e tecnologia para orientar políticas nacionais.

O Brasil, porém, ainda depende de iniciativas isoladas de pesquisadores que enfrentam dificuldades no acúmulo de dados e reflexões — um aspecto fundamental para o avanço científico. Apesar de estratégias pontuais, as políticas públicas permanecem fragmentadas. O governo federal tem incorporado o tema em campanhas de alfabetização midiática, mas as ações carecem de articulação com universidades e centros de pesquisa que possam avaliá-las e propor melhorias.

Essa lacuna científica se reflete nos recursos de enfrentamento disponíveis no país. Apenas em 2025 foi sancionada a Lei 15.211, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais, após o tema ganhar destaque nas redes por meio de influenciadores. Onde estão cientistas para apontar, explicar e reforçar a urgência da questão?

A responsabilidade também recai sobre as plataformas digitais, cujas políticas de moderação seguem opacas e insuficientes. As empresas de tecnologia têm acesso a volumes imensos de dados que poderiam subsidiar pesquisas e ações de prevenção, mas a cooperação com o setor público e com a comunidade científica ainda é limitada no Brasil.

Uma análise adequada desse cenário requer considerar múltiplos fatores. Torna-se difícil identificar o que está na raiz: o histórico baixo investimento em ciência, o pouco prestígio da comunidade científica perante a sociedade, o distanciamento histórico entre ciência e políticas públicas — ou tudo isso combinado.

Importa lembrar que o problema tem dimensão local e global. Assim como a internet, a violência sexual online não conhece fronteiras. É essencial que a comunidade científica internacional compartilhe terminologias, metodologias de mapeamento e estratégias de enfrentamento. Ao mesmo tempo, pesquisas regionais precisam ser estimuladas, levando em conta vulnerabilidades específicas, práticas familiares e os recursos locais disponíveis — como legislação, programas de prevenção e redes de acolhimento.

Espera-se que não tarde para que o investimento público no Brasil se torne efetivamente indutivo sobre o tema, com editais específicos, agendas de pesquisa e infraestrutura para popularização de dados. Só assim o país poderá participar de iniciativas internacionais com o status de proponente e coordenador, não apenas de espectador da ciência global.

 

Sobre a autora

Ana Ludmila Freire Costa é psicóloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde também concluiu o doutorado em Psicologia, com estágio sanduíche na Universidad Complutense de Madrid. Atua na área de psicologia social, com foco em políticas públicas, ciência e educação, investigando as relações entre produção científica, práticas sociais e proteção de crianças e adolescentes em contextos digitais. Atualmente, é pesquisadora de pós-doutorado sobre o tema na University of New Hampshire, nos EUA. 

 

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Publicado na Bori em 23/10/2025, 23:45 – Atualizado em 27/10/2025, 8:51