15 de julho de 2025 Foto: Sergio Floeter
Biologia
O peixe-borboleta Prognathodes dichrous é uma espécie endêmica icônica das ilhas de Ascensão e Santa Helena, localizadas ao longo da Cordilheira Mesoatlântica

Highlights

– A maioria das espécies de peixes em três ilhas oceânicas da Dorsal Mesoatlântica tem origem no Atlântico Oeste, principalmente Brasil e Caribe

– Os peixes dessas ilhas tendem a ser maiores, viver em águas mais profundas e ter maior capacidade de dispersão

– Duas espécies endêmicas são tão antigas que podem ter surgido antes do aparecimento da ilha onde vivem

As ilhas oceânicas de São Pedro e São Paulo, Ascensão e Santa Helena, localizadas na região conhecida como Dorsal Mesoatlântica, no oceano Atlântico, têm 44 espécies de peixes recifais que não existem em nenhum outro lugar do mundo. A constatação é de um novo estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B por pesquisadores das universidades federais de Santa Catarina (UFSC), do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Técnica da Dinamarca.

A pesquisa teve como ponto de partida uma extensa base de dados sobre distribuição e características de 1.637 espécies de peixes recifais do Atlântico. Em seguida, para uma análise mais detalhada, o estudo reconstruiu rotas evolutivas e padrões de dispersão de 88 espécies que ocorrem na Dorsal Mesoatlântica a partir de dados moleculares e filogenéticos.

Os resultados indicam que, embora 70% das espécies não endêmicas da região tenha origem no Atlântico Oeste – em especial no Brasil e Caribe –, mais de um terço das espécies endêmicas surgiu a partir do Atlântico Leste, e 11% tem raízes ainda mais distantes, no Oceano Índico.

O trabalho mostrou também que as espécies endêmicas Scartella nuchifilis e Thalassoma ascensionis aparentam ser mais antigas do que a própria ilha de Ascensão, onde hoje são encontradas. A explicação para essa discrepância pode estar na existência de montes hoje submersos encontrados entre Ascensão e Santa Helena e nas variações do nível do mar, que possibilitaram a sobrevivência dessas espécies ao longo de milhões de anos naquela região.

Outro destaque do estudo é a análise de características ecológicas que ajudam a explicar a capacidade de dispersão dessas espécies até ilhas tão remotas. Em relação aos demais peixes recifais, os peixes encontrados nas ilhas da Dorsal Mesoatlântica tendem a ser maiores, alcançar maiores profundidades e possuírem características como ovos pelágicos – que ficam semanas flutuando na água – e habilidade de se deslocar aderidos a algas, troncos ou outros materiais flutuantes. Isso aumenta as chances de colonização de ambientes distantes.

“Ilhas remotas como essas são hotspots de endemismo e nos ajudam a entender como a vida marinha se espalha e se adapta ao longo do tempo. Mas também são ecossistemas vulneráveis – e cada espécie única perdida é uma peça insubstituível do quebra-cabeça evolutivo”, explica a pesquisadora da UFSC Isadora Cord, que liderou o artigo. A partir dessas constatações, o professor da UFSC Sergio Floeter, coautor do artigo, explica os desafios de pesquisas futuras. “Os ambientes recifais mesofóticos dessas ilhas – ou seja, situados entre 80 e 120m, fora do alcance do mergulho científico convencional com SCUBA, são agora a nova fronteira de estudos, pois ainda podem revelar novas espécies e padrões ecológicos únicos”.

Coleção:

DOI: https://doi.org/10.1098/rspb.2025.0756

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 15/7/2025, 23:45 – Atualizado em 16/7/2025, 9:55