Foto: Maria Clara Guimarães / AmazonFACE/Divulgação
Davi Lapola (Unicamp), Kaianaku Kamaiurá (Programa Kuntari Katu), Marina Hirota (UFSC), Ana Paula Morales, Sabine Righetti (cofundadoras da Bori) e Taís González (Unicamp) em evento na COP30
Publicado na Bori em 26/11/2025, 14:18 – Atualizado em 14/1/2026, 16:39

Há mais de cinco anos, a Bori acompanha a produção científica procurando estudos de pesquisadores brasileiros que possam render boas pautas no jornalismo. Agora, em parceria com a Fundação Conrado Wessel (FCW), estamos utilizando inteligência artificial para mapear, organizar e analisar estudos científicos para tomadores de decisão — e apresentamos essa ideia no último dia 13, na COP30, em Belém.

Na conferência do clima da ONU, Sabine Righetti e Ana Paula Morales, cofundadoras da Bori, apresentaram um estudo inédito que analisou centenas de artigos científicos com ajuda de inteligência artificial sobre sobre o chamado ponto de não retorno da Amazônia (“tipping point”, quando o ecossistema perde a capacidade de regeneração). O levantamento integra o Atlas Cultural de Soluções Científicas, iniciativa da Bori e da FCW.

O trabalho mostrou que 511 artigos científicos tratavam especificamente de tipping point da Amazônia, classificados em três grupos: 178 artigos sugerem a existência de um ponto de não retorno; 247 rejeitam essa hipótese e 86 destacam incertezas ou insuficiência de evidências. A conclusão é que apesar de avanços significativos, falta consenso: a ciência ainda trabalha com faixas de probabilidade, não com valores absolutos. Enquanto alguns estudos fixam o tipping point em 25% de desmatamento, outros apresentam intervalos entre 18% e 28%. 

“Nosso mapeamento reforça que é necessário evitar discursos binários como ‘acabou/não acabou’ e comunicar melhor as zonas de risco”, explicou Ana Paula Morales, da Bori.

O trabalho foi debatido no painel “Hipóteses extraordinárias exigem evidências extraordinárias: Perspectivas em pesquisa, educação e ações sobre o tipping point da Amazônia”, realizado na Zona Azul da COP30, compôs a agenda da Unicamp no pavilhão Higher Education for Climate Action, na COP30. A mediação foi de David Lapola, coordenador do Cepagri/Unicamp e um dos 664 cientistas de 111 países convocados para elaborar o próximo relatório do IPCC. 

“Os resultados preliminares da pesquisa mostram uma atenção crescente da comunidade científica sobre a questão do ponto de não retorno da Amazônia, mas ainda longe de um consenso sobre os mecanismos e limiares que poderiam disparar esse processo em larga escala na região”, diz Lapola.

O painel também foi integrado por Marina Hirota (Universidade Federal de Santa Catarina), Kaianaku Kamaiurá (Programa Kuntari Katu do Ministério dos Povos Indígenas e Comitê Indígena de Mudanças Climáticas) e Taís González (Programa AmazonFACE, Unicamp).

O estudo completo será publicado em breve. A partir de agora a Bori também vai analisar a literatura científica, com auxílio de IA, em outros temas urgentes para o país, como saúde pública.