Foto: ACT Promoção da Saúde / Divulgação
Raquel Ribeiro (em pé, ao centro) participou do evento da ACT Promoção da Saúde em 21 de outubro de 2025
Publicado na Bori em 28/10/2025, 17:52 – Atualizado em 28/10/2025, 17:52

por Raquel Ribeiro*

 

O álcool faz parte do cotidiano de muitos brasileiros, mas o quanto sabemos, de fato, sobre os efeitos do seu consumo na saúde e na sociedade? Essa foi a provocação de um encontro promovido pela ACT Promoção da Saúde, no dia 21 de outubro, que reuniu jornalistas e cientistas no auditório da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. 

A Agência Bori esteve lá, representada pela engajadora de comunidades, Raquel Ribeiro, para acompanhar o debate sobre os novos dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) — e refletir sobre o papel da imprensa na divulgação de informações baseadas em evidências.

A mesa foi mediada por Maíra Matias, do Joio e o Trigo, e contou com a presença de Clarice Madruga, coordenadora do LENAD; Ilana Pinsky, que participou online de Nova York; Zila Sanchez, coordenadora de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unifesp; Tainá Costa, da Organização de Saúde Global; professor Dr. Guilherme Messas, docente da Santa Casa e anfitrião do evento; e Laura Cury, coordenadora da ACT Promoção da Saúde.

Entre os dados apresentados, chamou atenção o fato de que, embora tenha diminuído o número de pessoas que consomem bebidas alcoólicas, o consumo abusivo entre aqueles que bebem aumentou. Outro ponto preocupante foi o crescimento da compra de bebidas por menores de idade, especialmente por meio de aplicativos.

Clarice Madruga explicou que o álcool é uma substância que afeta o desenvolvimento cerebral, tornando seu consumo em idades precoces ainda mais preocupante devido aos impactos no crescimento do cérebro.

Zila Sanchez lembrou que a legislação brasileira ainda não classifica a cerveja como bebida alcoólica (a Lei 9294/96, por exemplo, não impõe regras para a publicidade e propaganda de cerveja), o que facilita sua divulgação e normaliza o consumo.

Tainá Costa destacou que, segundo o LENAD,  73% do álcool consumido no país vem da cerveja, justamente por ser mais barata e livre de restrições de marketing. Ela reforçou a importância de políticas públicas que incluam tributação sobre o álcool como forma de reduzir danos: “Um real a mais no preço de uma latinha pode salvar mais de 10 mil vidas”, afirmou.

Ilana Pinsky fez uma comparação incômoda com outros países. Ela lembrou que o Brasil ficou 11 anos sem atualizar o LENAD por falta de investimento, deixando uma enorme lacuna de informações sobre um problema que só cresce. Enquanto isso, nos Estados Unidos levantamentos semelhantes são feitos todos os anos, garantindo dados contínuos para orientar políticas públicas. Essa diferença mostra o quanto o tema ainda é subestimado por aqui.

Os especialistas também discutiram o baixo rigor das políticas de controle do álcool no Brasil. De acordo com os parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país cumpre apenas metade das recomendações globais sobre o tema. As leis existem, mas sua implementação ainda é frágil — o que reforça a urgência de fortalecer tanto a fiscalização quanto o debate público.

Discutir o consumo de álcool é discutir saúde pública e como o país lida com desigualdades e danos evitáveis. Informação sólida faz diferença nesse debate, e a imprensa não pode ficar sem acesso a especialistas. A Bori está aqui para isso, com um banco de fontes reúne de mais de 600 pesquisadores, disponíveis para entrevistas e análises que ajudam a transformar dados em informação de qualidade.

 

* Raquel Ribeiro é Engajadora de Comunidades da Bori