Foto: Marvin Meyer / Unsplash

Em pesquisa inédita que fundamentou a criação da Agência Bori, as pesquisadoras Sabine Righetti e Ana Paula Morales mapearam as necessidades e demandas de jornalistas que se dedicam à cobertura de temas científicos e de cientistas de todo o país no processo de disseminação de ciência via imprensa. O estudo “O que pensam os jornalistas de ciência e os cientistas do Brasil?” acaba de ser publicado e pode ser acessado na íntegra aqui.

A pesquisa, realizada de forma on-line em 2019, recebeu respostas de 140 de  jornalistas que cobrem ciência e temas correlatos — o que representa 6% dos profissionais dedicados ao tema em todo o país. Os respondentes trabalhavam em todos os tipos de veículos de comunicação, como TV, rádio, revistas, jornais e portais, de 12 estados e Distrito Federal.

Também foram ouvidos 1.681 pesquisadores de todas as áreas do conhecimento de todos os estados, com exceção de Rondônia, Roraima e Distrito Federal, oriundos de 177 instituições de pesquisa. Se considerado o total de 128 mil pesquisadores brasileiros, de acordo com os indicadores do CNPq de 2010, a amostra representa 1,3% dos cientistas do país.

O estudo foi realizado no âmbito do projeto “Bori: plataforma de divulgação de artigos científicos de pesquisadores brasileiros para a imprensa nacional e estrangeira”, com apoio da Fapesp (processo 2017/16036-5), e é a primeira produção científica sobre a Agência Bori.

 

Desafios na cobertura jornalística de ciência

Os resultados da pesquisa revelam que a busca por fontes para as reportagens – sejam artigos inéditos ou contatos de cientistas que possam ser entrevistados – é um dos principais desafios enfrentados pelos jornalistas na cobertura de temas científicos.

A busca por novos estudos geralmente se dá de forma ativa pelos jornalistas, em repositórios de artigos científicos ou com os próprios cientistas. Esse processo, que exige a construção de redes de contatos com pesquisadores e o conhecimento de repositórios e revistas científicas, demanda tempo e experiência, o que pode representar uma dificuldade significativa para jornalistas iniciantes ou que não acompanham a ciência tão de perto (por exemplo, que cobrem diversas áreas).

Quando precisam entrevistar pesquisadores sobre temas científicos abordados em suas matérias, metade dos jornalistas preferem entrar em contato com os cientistas por meio do seu telefone celular e 30% por e-mail. No entanto, uma das principais dificuldades na cobertura de ciência e de temas correlatos, de acordo com os jornalistas, é que eles não conseguem encontrar os cientistas brasileiros rapidamente pelo telefone — o que muitas vezes se faz necessário na apuração jornalística, em que o profissional geralmente precisa ouvir mais de uma fonte para a produção de sua matéria.

Na Bori, os materiais de divulgação dos artigos inéditos antecipados a jornalistas cadastrados na plataforma são acompanhados dos contatos do/a pesquisador/a porta-voz (e-mail e telefone celular), que são previamente preparados para atender a imprensa, para que os jornalistas possam acessá-lo/a com facilidade.

 

Cientistas querem divulgar seus estudos para a imprensa, mas não sabem como

A quase totalidade dos cientistas brasileiros entrevistados (97,4%), por outro lado, gostaria de divulgar mais os seus trabalhos acadêmicos. Seis em cada dez respondentes inclusive já praticam algum tipo de divulgação científica — seja por meio de ações não profissionais, como escrever em redes sociais pessoais, ou de cunho educacional, como ações voltadas para estudantes do ensino básico.

Em relação à divulgação de suas pesquisas para a imprensa, no entanto, uma das maiores dificuldades apontadas pelos cientistas é não saber como entrar em contato com jornalistas, juntamente à escassa valorização da ciência brasileira pela imprensa no país e a falta de recursos e tempo, por exemplo.

Sete em cada dez respondentes disseram que não tinham falado com nenhum jornalista sobre qualquer trabalho acadêmico – de sua autoria ou outro – no último ano. Quando perguntados sobre o motivo, a maioria dos pesquisadores disseram que nenhum jornalista os havia procurado, e parte deles alegou que não sabem falar com jornalistas.

Chama atenção o fato de uma parcela dos cientistas dizer que não sabe falar com jornalistas ou dar entrevistas, mesmo considerando que a pauta seja um trabalho realizado pelo próprio pesquisador.

Esse é um desafio enfrentado pelo Bori, ou seja, preparar o pesquisador para que ele se sinta confortável e confiante para falar sobre sua pesquisa com jornalistas de todo o país. Fazemos isso treinando individualmente cientistas que têm seus artigos divulgados na Bori ou por meio de cursos. Em breve, vamos promover ações específicas voltadas para pesquisadores que estão nos bancos de fontes da Bori.