por Ana Carolina Araújo*
Capacitar os bolsistas do Projeto +Ciência da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG) me fez perceber um desafio comum em universidades que, como a nossa, não contam com o curso de jornalismo: preparar estudantes de diferentes áreas para transformar pesquisa em notícia de divulgação científica. Longe de ser um obstáculo incontornável, esse cenário acabou revelando uma oportunidade para mostrar que a produção de notícias de divulgação científica pode – e deve – ser feita por acadêmicos de todas as áreas do conhecimento.
Esse é o espírito do Projeto +Ciência, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), criado para tornar a universidade mais aberta e presente no cotidiano das pessoas por meio da interação entre pesquisadores, imprensa e sociedade. A proposta se consolidou com a constatação de que divulgar ciência é compromisso de todos que fazem ciência e partimos para selecionar bolsistas de cursos como medicina e ciências biológicas, apostando na ideia de que qualquer estudante pode aprender a comunicar descobertas científicas.
Mas como adaptar o conhecimento de quem está acostumado a relatórios acadêmicos, regras da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e linguagem formal para dialogar com um público mais amplo, de maneira clara e acessível?
A capacitação começou com uma oficina sobre divulgação científica, que abordou também fundamentos da redação jornalística, vocabulário típico do jornalismo e critérios para produção de notícias. Para fortalecer essa formação, recomendei o artigo “Divulgação científica para a imprensa: o modelo híbrido dos textos da Agência Bori com base em cinco perguntas essenciais”, das cofundadoras da Agência Bori, Sabine Righetti e Ana Paula Morales, assinado com Natália Flores e Fernanda Andrade. Esse material apresenta as cinco perguntas que estruturam o texto explicativo da Bori:
- Qual o principal achado da pesquisa?
- Como a pesquisa foi feita?
- Como os resultados impactam a vida das pessoas?
- O que muda o que se sabia na área?
- E o que acontece agora diante dos resultados?
Ainda assim, os primeiros textos dos bolsistas eram densos, carregados de termos técnicos e frases longas — reflexo do medo de errar ao simplificar demais as descobertas dos pesquisadores. A questão nunca foi falta de dedicação ou cuidado, mas de ferramentas para tornar o conhecimento acessível.

Os bolsistas Rafael Martins da Silva Afeto e Vitoria Geraldine apresentam pôster sobre divulgação científica no âmbito do Projeto +Ciência, que aposta na formação de estudantes com base no modelo da Agência Bori (Foto: Arquivo pessoal)
O divisor de águas veio quando transformei o roteiro de perguntas essenciais da Bori em um formulário prático no Google Forms. O ChatGPT entrou como aliado para criar um script de automatização a fim de converter as respostas em texto-base. O resultado? Um primeiro rascunho pronto para ser lapidado e, principalmente, para ser entendido por quem não participa do universo acadêmico.
Com isso, o passo a passo ficou mais claro: os bolsistas apuram junto ao pesquisador, redigem uma primeira versão e extraem dela as respostas para preencherem o formulário. A partir de então, um texto-base mais enxuto e estruturado é gerado para os ajustes finais da publicação — e ainda podem compartilhar essa versão com o próprio pesquisador, para revisão e validação das informações.
Foi assim que os textos produzidos pelos nossos bolsistas passaram a ganhar objetividade, clareza e a priorizar o que realmente importa para o leitor. A abordagem inspirada na metodologia da Agência Bori padroniza a divulgação, facilita a edição e eleva o nível do conteúdo publicado no Jornal Unifal-MG, também enviado para a imprensa.
Lembro bem do bolsista de Ciências Biológicas, acostumado à linguagem técnica, surpreso ao reconhecer que a escrita acadêmica não é inclusiva. “Ciência não é só fazer experimentos e analisar dados, mas também mostrar para as pessoas o que fazemos e é isso o que mais me encanta em fazer parte deste projeto”, compartilhou ao ver um texto seu virar pauta em uma TV de abrangência regional.
Percebo a força de uma boa comunicação quando vejo o quanto a pesquisa ganha vida fora do contexto acadêmico. No +Ciência, colecionamos exemplos assim. Matérias sobre incidência de atropelamento de animais silvestres e domésticos em uma das principais rodovias sul-mineiras, análise de eventos adversos pós-vacinação contra Covid-19, levantamento de desafios no atendimento ao idoso na atenção primária, tipos de violências sofridas por mulheres em situação de vulnerabilidade no Sul de Minas. Cada pesquisa relatada por nossos bolsistas tem bastidores com idas e vindas, dúvidas sobre termos, enfoque e, quase sempre, um momento que muda tudo: o instante em que o bolsista entende que precisa de uma fala que faça sentido no cotidiano das pessoas.
Ao final, vejo que o sucesso dessa experiência vai além de modelos e ferramentas. A cada texto revisado, a cada devolutiva enviada e a cada repercussão de uma pesquisa na mídia eu renovo a certeza de que tornar a ciência acessível não é apenas uma tarefa técnica, mas uma missão de todos que acreditam na relevância do conhecimento compartilhado. É esse encontro entre a vontade de aprender e o compromisso de tornar a ciência compreensível que faz a diferença.
Aprendi nessa jornada que, quando a ciência se abre à comunicação, ela encontra eco em quem se dispõe a construir pontes — e, nesse caminho, amplia seu alcance e significado, assim como tão bem faz e multiplica a própria Agência Bori.
*Ana Carolina Araújo é jornalista da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), mestra em administração pública e pesquisadora em divulgação científica. Além de trabalhar com comunicação institucional e na produção de pautas para o Jornal Unifal-MG, integra o Projeto +Ciência.
