23 de setembro de 2025 Foto: Mery Alencar / UFRN
BotânicaCilindros de plástico cobertos por tela em solo de Restinga, usados para medir a decomposição de flores e folhas
Experimento em Restinga no RN testou a decomposição de flores e folhas

Highlights

  • Mistura de flores e folhas da mesma espécie acelerou a decomposição em 71% das 28 espécies analisadas
  • Experimento de campo foi realizado pela UFRN em área de Restinga conservada no Rio Grande do Norte
  • Flores, mais ricas em nutrientes, atraem decompositores que também degradam folhas; folhas, por sua vez, fornecem cálcio e magnésio e melhoram a estrutura do material em decomposição

Quando uma planta floresce, não é só a reprodução que está em jogo. Ao cair no solo e se misturar às folhas da mesma espécie, as flores aceleram a decomposição e, com isso, a reciclagem de nutrientes. Essa é a principal conclusão de um estudo com 28 espécies tropicais, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. Os pesquisadores observaram que a combinação de flores e folhas aumenta a taxa de decomposição em 71% dos casos, criando verdadeiras “ilhas de produtividade” no solo.

O experimento foi feito em uma área de Restinga conservada no litoral do Rio Grande do Norte. A equipe instalou 420 microcosmos — pequenos cilindros preenchidos com solo e material vegetal — para comparar a decomposição de flores e folhas isoladamente e em mistura. “O maior desafio foi o pré-campo. Tivemos que contar com a ajuda de muita gente do laboratório para conseguir levar todo o material até o local, que não tinha acesso de carro”, lembra a pesquisadora Mery Alencar, uma das autoras do trabalho. O esforço logístico consumiu cinco dias de preparação para a instalação do experimento.

Os resultados mostraram que flores, mais ricas em nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio, funcionam como chamariz para microrganismos decompositores. “É como se a gente tivesse uma bienal de livros e levasse um autor muito famoso. Ele atrai mais pessoas, que acabam conhecendo outros autores também. A flor, por ter mais nutrientes, atrai mais decompositores, que aceleram também a degradação da folha”, compara Alencar.

A relação, no entanto, não é de mão única. Folhas também oferecem elementos importantes — como cálcio e magnésio — e contribuem com uma estrutura mais rígida que evita a compactação do material, favorecendo a entrada de oxigênio e a atividade de fungos e invertebrados. Dessa forma, flores e folhas se beneficiam mutuamente quando estão misturadas no solo.

O estudo inova ao analisar interações entre diferentes órgãos de uma mesma planta. Até agora, a maioria das pesquisas sobre decomposição se concentrava em misturas de folhas de espécies distintas. Os autores destacam que as diferenças químicas entre flores e folhas podem ser até maiores do que entre folhas de espécies diferentes, ampliando o potencial de sinergia.

Na média, flores decompõem-se mais rápido que folhas, mas a presença de flores estimula de forma especial a degradação do material foliar. Essa complementaridade ajuda a manter o ciclo de nutrientes ativo em ecossistemas tropicais, onde a disponibilidade de nutrientes no solo é frequentemente um fator limitante para o crescimento das plantas.

Além do efeito imediato na ciclagem, os pesquisadores veem na descoberta uma pista para entender a própria evolução das plantas com flores. “O papel das flores é atrair polinizadores para a reprodução. O que estamos começando a ver é: será que a flor, ao cair no solo, também não tem um papel importante para manter essa ampla distribuição de plantas com flores no planeta? Queremos entender como isso beneficia diretamente a planta que produziu as flores”, conclui Alencar.

Os autores apontam que os próximos passos são investigar esses efeitos em diferentes ecossistemas e escalas para entender melhor seu papel na evolução das angiospermas, isto é, das plantas com flores. A hipótese é que, além de atrair polinizadores, as flores também contribuam para a manutenção da diversidade e da ampla distribuição desse grupo no planeta, ao reforçar a ciclagem de nutrientes e a produtividade dos solos.

DOI: https://doi.org/10.1098/rspb.2025.0234

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 23/9/2025, 23:45 – Atualizado em 26/9/2025, 11:36