O pau-cravo (Dicypellium caryophyllaceum) é uma árvore nativa e rara da Amazônia, conhecida pelo aroma marcante de suas folhas e madeira. Apesar de seu valor ecológico e cultural, a espécie está ameaçada de extinção e conta com pouquíssimos indivíduos conhecidos na natureza. Um estudo inédito da Universidade Federal do Pará (UFPA), realizado no campus de Altamira, publicado nesta sexta (22) pela Revista Rodriguésia, traz descobertas essenciais para garantir que essa árvore continue fazendo parte do nosso patrimônio natural.
A pesquisa analisou as sementes indicando que elas são “recalcitrantes”, ou seja, não suportam longos períodos de armazenamento nem secagem. Isso significa que, para germinar, as sementes precisam ser plantadas imediatamente após a colheita. Esse fator é determinante para qualquer tentativa de cultivo ou reflorestamento da espécie.
Outra descoberta importante foi a identificação da cor ideal para a coleta dos frutos. Quando eles atingem um tom roxo-escuro, estão no ponto certo de maturidade, aumentando as chances de germinação. Além disso, a análise bioquímica mostrou que as sementes apresentam óleo — cerca de 20% de sua composição —, característica que influencia seu metabolismo e sua sensibilidade à perda de água.
O estudo foi conduzido pela engenheira agrônoma Dhyene Rayne dos Santos Becker, mestre em Biodiversidade e Conservação pela UFPA, sob orientação da professora Raírys Cravo Herrera. A pesquisa foi realizada com análises morfológicas, biométricas, anatômicas e bioquímicas de frutos e sementes coletadas manualmente entre fevereiro e março de 2021, em Vitória do Xingu (PA), a partir de cinco árvores reprodutivas.
Para Raírys Herrera, cada estudo de seu grupo de pesquisa é um passo na luta contra a extinção do pau-cravo. “Quando entendemos o ciclo reprodutivo e as necessidades de uma espécie, conseguimos planejar estratégias de conservação mais eficazes. No caso do pau-cravo, a urgência é real: sem ações de investimento financeiro, pesquisa científica, manejo e plantio imediato, podemos perder uma árvore que faz parte da identidade da Amazônia”.
A perda de árvores como o pau-cravo significa também a perda de conhecimentos tradicionais, serviços ambientais e equilíbrio ecológico. E, segundo as pesquisadoras, a ciência e a tecnologia são aliadas poderosas para reverter esse cenário — mas é preciso agir agora, enquanto ainda há tempo. O trabalho recebeu apoio da Capes-PROCAD (Ação de Apoio à Cooperação Acadêmica) e foi realizado em parceria com a UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana).
