15 de maio de 2026 Foto: Geraldo Nascimento / Universidade de Pernambuco
Ciência
Formigas: as pequenas engenheiras que ajudam a recuperar florestas

Highlights

  • Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com UNEMAT e UFAM, mapeia a falta de pesquisas sobre a dispersão de sementes por formigas no Brasil.
  • A interação funciona como uma engenharia invisível: as formigas carregam sementes para seus ninhos em busca de nutrientes e, ao descartá-las intactas, ajudam a germinar novas plantas longe da competição.
  • A ausência de dados, especialmente na Amazônia e no Pantanal, prejudica projetos de conservação e pode levar à eliminação equivocada de insetos que ajudariam na restauração ecológica.

Quando as sementes caem muito perto da planta-mãe, as novas mudas acabam competindo com a própria “família” por luz, água e nutrientes. A proximidade derruba as chances de sobrevivência. Para resolver o problema, a natureza usa dispersores que levam as sementes para novos territórios. Em áreas degradadas, onde vertebrados frugívoros — como mamíferos e aves de maior porte — já desapareceram devido à caça excessiva e ao desmatamento, as formigas assumem o protagonismo e atuam como pequenas engenheiras na reconstrução dos ambientes naturais.

Um novo estudo brasileiro, recém-publicado na revista Brazilian Journal of Biology, revela um grave apagão de dados sobre como as formigas atuam na dispersão de sementes em biomas ameaçados, como a Amazônia, o Pantanal e o Pampa. A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

A equipe analisou dez anos de literatura científica global e descobriu que a maioria das pesquisas nacionais prioriza apenas a mata atlântica e o cerrado. O dado é ainda mais paradoxal quando se considera que o Brasil foi o país com o maior número absoluto de publicações sobre o tema no período analisado, com 27 artigos — 17,9% de toda a produção mundial

Mesmo liderando globalmente, a ciência brasileira concentra esse esforço em apenas dois biomas, deixando vastas regiões sem qualquer informação empírica. A ausência de informações nos outros ecossistemas acontece exatamente durante o avanço acelerado do desmatamento e das queimadas, o que bloqueia a compreensão real sobre o funcionamento dessas áreas.

“Na prática, isso cria um ‘apagão de informação’: justamente onde mais precisamos de conhecimento ecológico, sabemos menos. E isso pode levar a estratégias de conservação menos eficientes ou até equivocadas, porque estamos tomando decisões sem conhecer bem os processos naturais que sustentam esses ecossistemas”, alerta Ricardo Vicente, pesquisador da UFAM e um dos autores do estudo.

Na natureza, essa parceria recebe o nome de mirmecocoria e opera à base de recompensa. As plantas desenvolvem uma parte nutritiva acoplada à semente. Os insetos levam a estrutura até o ninho, consomem apenas a parte de interesse e descartam a semente intacta em um local rico em matéria orgânica, favorecendo a germinação. O artigo aponta uma falha comum na ciência mundial: apenas 17,9% dos estudos analisados verificaram explicitamente se as sementes foram de fato dispersas ou simplesmente consumidas pelas formigas, e somente 16,6% realizaram testes para avaliar se as sementes permaneciam viáveis após o manuseio pelos insetos.

“O problema é que muitos estudos registram apenas que a formiga ‘removeu’ a semente, mas não acompanham o que acontece depois. No campo, isso costuma ser interpretado como algo negativo, como se a formiga estivesse apenas consumindo ou destruindo a semente”, explica o cientista.

Esse erro de método acaba gerando confusão entre a dispersão verdadeira e a predação (quando o inseto de fato destrói a semente). Sem provas claras, gestores ambientais costumam encarar todas as formigas como vilãs devido ao histórico de pragas das cortadeiras. Na prática, o medo leva ao uso desnecessário de inseticidas em áreas de plantio florestal.

“Sem esse entendimento sobre a ‘remoção de sementes’, existe o risco de tomar decisões baseadas em percepção e não em evidência, como eliminar indiscriminadamente formigas que poderiam estar ajudando na recuperação da área”, destaca Vicente.

Os autores defendem agora a adoção de metodologias padronizadas que exijam o acompanhamento do destino final das sementes nos trabalhos de campo. Ao mapear as melhores parcerias ecológicas, os formuladores de políticas públicas terão a chance de aproveitar o trabalho silencioso dos insetos para baratear e turbinar a restauração das florestas brasileiras.

DOI: https://doi.org/10.1590/1519-6984.300253

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 15/5/2026, 23:45