13 de dezembro de 2024 Foto: wayhomestudio / Freepik
Gêneroviolência contra mulheres negras
A maioria dos casos notificados de violência física (54,7%) e psicológica (59,6%) dizem respeito às mulheres casadas

Highlights

  • Estudo da Fiocruz mostra que jovens de 18 a 39 anos, negras, casadas e de baixa escolaridade sofrem mais violência contra a mulher no meio rural; violência física predomina em oito em cada dez casos
  • Autores das violências são majoritariamente companheiros das vítimas, do sexo masculino, que as cometem em suas residências
  • O estudo pretende fornecer dados quantitativos acerca das particularidades da violência contra a mulher em meio rural, incipientes na literatura científica

Jovens de 18 a 39 anos, negras, casadas e de baixa escolaridade foram as principais vítimas de violência contra a mulher em contextos rurais entre os anos de 2011 e 2020. As violências, em sua maioria físicas (77,6%), são cometidas principalmente em suas residências por companheiros do sexo masculino. A análise, publicada na “Revista Brasileira de Epidemiologia” na sexta (13), foi conduzida por pesquisadoras da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O artigo parte das 79.229 notificações registradas por mulheres de 18 a 59 anos no período. Foram utilizados dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), que apontaram para a violência física como predominante, seguida por psicológica/moral (36,5%) e sexual (6,2%). Enquanto 52,5% das ocorrências de violência física têm pretas e pardas como vítimas, 33% dizem respeito a mulheres brancas, 7,1%, a indígenas e 0,7%, a amarelas.

A maioria dos casos notificados de violência física (54,7%) e psicológica (59,6%) dizem respeito às mulheres casadas. Já as solteiras foram as principais vítimas de violência sexual – 48,5%, ante a 36,6% das ocorrências entre casadas, por exemplo. Neste grupo, também são as jovens negras que mais sofrem, mas os agressores são, em maioria, desconhecidos (32,9%).

O estudo também aponta para o aumento das notificações entre 2011 e 2020, atribuído principalmente ao aprimoramento da vigilância epidemiológica. Em 2011, houve a universalização dos procedimentos de comunicação da violência no atendimento à vítima em serviços como os de saúde e de assistência social. Ainda assim, há uma provável subnotificação das violências, especialmente psicológicas, dada a maior dificuldade de reconhecê-las, e sexuais, por medo de julgamento e sentimentos de culpa ou vergonha por parte da vítima. A violência física é mais facilmente detectável por marcas no corpo, assim como por ocorrências que levam à busca de unidades de saúde — principal local de encaminhamento para mulheres no meio rural, que na maioria dos casos não conta com delegacias especializadas.

Características como essas refletem a importância de estudos epidemiológicos sobre a violência neste contexto específico — raros na ciência, como ressalta a pesquisadora da Fiocruz Luciane Stochero, uma das autoras do artigo. Assim, particularidades relevantes ao direcionamento de políticas públicas acabam ignoradas. O isolamento geográfico é um exemplo, assim como a falta de transporte público e as longas distâncias até a zona urbana. “Às vezes os vizinhos moram longe, e pode ser que a mulher sofra violência e não seja ouvida. As campanhas pedem para que a mulher grite, chame e peça socorro, mas e se não tiver ninguém para te ouvir? Às vezes os problemas são os mesmos, mas o enfrentamento é diferente”, explica.

As autoras Luciane Stochero e Liana Wernersbach Pinto destacam a necessidade de mais estudos sobre o tema, inclusive, considerando a diversidade brasileira. “Vamos ter um rural de sertão, um rural fluvial que é o Amazonas, um rural com grandes distâncias como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e um outro rural, no Sudeste e Sul. Este artigo pretende trazer a discussão do rural para a pesquisa”, concluem as estudiosas.

DOI: https://www.scielo.br/j/rbepid/a/5ZV8FdqFRGFc7yTcD6c4T4H/?lang=pt

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 13/12/2024, 23:45