14 de agosto de 2025 Foto: jcomp / Freepik
Medicina e Saúdefome
Em 2022, a insegurança alimentar atingiu seis em cada dez dos domicílios

Highlights

– Estudo da USP analisou uma década de insegurança alimentar no país e sua associação com indicadores de educação, emprego e renda

– Norte e Nordeste concentram os piores indicadores; Maranhão, Pará, Amazonas, Piauí, Sergipe e Bahia tiveram média de insegurança alimentar acima de 50% no período

– Políticas públicas precisam articular combate à fome, promoção da educação de qualidade e garantia de empregos aos trabalhadores

O aumento da insegurança alimentar no Brasil entre 2013 e 2023, verificado principalmente nas regiões Norte e Nordeste, está fortemente associado a fatores como desemprego e baixa taxa de alfabetização. É o que aponta estudo de pesquisadores do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva em agosto.

A pesquisa utilizou dados de prevalência de insegurança alimentar das principais bases de dados brasileiras – a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (2013 e 2023), a Pesquisa de Orçamentos Familiares (2017/2018) e o II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar contexto da pandemia no Brasil (II VIGISAN – 2021/2022) – e indicadores socioeconômicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por estado. A associação entre os dados socioeconômicos e de insegurança alimentar foi verificada através de um modelo estatístico que observa suas variações significativas ao longo do tempo e nos estados brasileiros.

Apesar de o país ter saído do Mapa da Fome da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2014, os dados dos anos de 2018 e 2022 foram especialmente críticos. Em 2022, a insegurança alimentar atingiu 58,7% dos domicílios, com mais de 33 milhões de pessoas passando fome – cenário agravado pela pandemia de covid-19.

As regiões Norte e Nordeste concentram os piores indicadores e a maior vulnerabilidade à fome dentro do período analisado. Os seis estados que apresentaram médias de insegurança alimentar acima de 50% foram, em ordem, Maranhão (64,4%), Pará (57,2%), Amazonas (56,7%), Piauí (51,8%), Sergipe (50,6%) e Bahia (50,4%). Esses estados também estão entre aqueles com menores médias de taxa de alfabetização e de rendimento médio e com maiores médias de taxa de desocupação.

Lucas Moura, pesquisador da USP e autor do artigo, explica que os resultados enfatizam a persistência de entraves à garantia do direito humano à alimentação nessas regiões, como os impactos ambientais da exploração de terras, a perda de biodiversidade alimentar e o aumento do preço dos alimentos. O pesquisador observa que, apesar desses fatores não terem sido investigados no estudo, estão relacionados aos indicadores analisados.

Apesar de o estudo não ter verificado associação com o rendimento médio da população entre 2013 e 2023, houve pouca variação do indicador, principalmente até 2022. Moura afirma que essa estagnação é um fator crítico. “Esse rendimento pode não ter acompanhado o aumento do preço dos alimentos no mesmo período, por exemplo, dificultando o acesso das famílias à alimentação adequada”, pontua.

A pesquisa destaca a urgência de políticas públicas que coloquem a educação, o emprego e a renda no centro das estratégias de combate à fome. Segundo o estudo, esses fatores estão diretamente ligados à Agenda 2030 da ONU, que estabelece metas globais para o desenvolvimento sustentável — entre elas, a erradicação da fome e a promoção de educação de qualidade.

O estudo foi parte da pesquisa de doutorado de Lucas Moura, que foi bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 14/8/2025, 23:45 – Atualizado em 21/8/2025, 11:11