Mulheres na menopausa com disfunção temporomandibular (DTM) dolorosa que faziam terapia hormonal apresentaram menor interferência da dor nas atividades diárias, além de menos sintomas de ansiedade, depressão e pensamentos negativos relacionados à dor. Esses são os principais achados de um estudo que investigou a relação entre menopausa, terapia hormonal e os impactos físicos e emocionais da DTM.
O trabalho traz um diferencial importante em relação às pesquisas já existentes sobre o tema, pois avaliou – além da intensidade da dor -, um conjunto mais amplo de fatores que influenciam a experiência dolorosa, incluindo saúde mental, funcionalidade da mandíbula, impacto da dor na rotina e catastrofização (termo utilizado para descrever pensamentos excessivamente negativos sobre a dor).
“Ainda existem poucos estudos avaliando mulheres com DTM dolorosa sob diferentes condições hormonais, especialmente considerando fatores emocionais e cognitivos relacionados à dor. Nosso objetivo foi ampliar essa compreensão e analisar a DTM dentro de uma perspectiva biopsicossocial”, explica a cirurgiã-dentista Mayara Abreu Pinheiro, professora do Departamento de Clínica e Odontologia Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e uma das autoras da pesquisa.
O artigo científico “Hormone therapy and psychosocial factors in menopausal women with painful TMD: a pilot cross-sectional study” foi publicado pelo Journal of Applied Oral Science. O trabalho fez parte da tese de doutorado de Lays Nóbrega Gomes Farias, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPB, sob orientação do professor Yuri Wanderley Cavalcanti. Raimundo Euzébio da Costa Neto também assina a publicação.
A DTM afeta a articulação da mandíbula e os músculos da mastigação, podendo causar dor na face, desconforto ao mastigar, estalos articulares, dificuldade para movimentar a boca, sensação de travamento da mandíbula e dores de cabeça. Mais frequente entre mulheres, a condição pode ser influenciada por fatores físicos, emocionais e hormonais. A menopausa é especialmente relevante nesse contexto devido à redução dos níveis de estrogênio, hormônio envolvido nos mecanismos de percepção e modulação da dor.
Para realizar a pesquisa, os autores avaliaram 45 mulheres diagnosticadas com DTM dolorosa. As participantes foram divididas em três grupos: aquelas com ciclo menstrual regular, as que estavam na menopausa sem terapia hormonal e as pacientes na menopausa em uso de terapia hormonal. As avaliações incluíram instrumentos validados internacionalmente para medir intensidade e interferência da dor, sintomas de ansiedade e depressão, limitação funcional da mandíbula e pensamentos catastróficos relacionados à dor.
Os resultados mostraram que as participantes que utilizavam terapia hormonal apresentaram escores significativamente menores de interferência da dor nas atividades cotidianas. Também registraram menores índices de ansiedade, depressão e catastrofização quando comparadas aos demais grupos. “O estudo não mostrou diferenças significativas na intensidade da dor entre os grupos. O que observamos foi uma associação mais forte entre a terapia hormonal e os aspectos emocionais e psicossociais da experiência dolorosa”, destaca a pesquisadora.
Para a cirurgiã-dentista, esse é um ponto importante para a compreensão das dores crônicas. “A dor não é apenas um fenômeno físico. A forma como a pessoa interpreta e enfrenta essa experiência pode influenciar diretamente seu sofrimento e a sua qualidade de vida”, enfatiza.
Entre os fatores avaliados, chamou atenção a redução dos chamados pensamentos catastróficos sobre a dor. Esse padrão de pensamento ocorre quando a pessoa acredita que a dor será insuportável, permanente ou incapacitante, o que pode aumentar o sofrimento emocional e dificultar o enfrentamento da condição.
Uma das hipóteses para explicar os resultados envolve o papel do estrogênio no sistema nervoso. Evidências científicas indicam que o hormônio participa da regulação de vias ligadas à sensibilidade da face e à percepção da dor. “A queda do estrogênio durante a menopausa pode afetar mecanismos relacionados à modulação da dor, à inflamação e às respostas emocionais. Contudo, é importante lembrar que a DTM é uma condição multifatorial e não depende exclusivamente dos hormônios”, explica Pinheiro.
Os autores ressaltam que os resultados devem ser interpretados com cautela. Como se trata de um estudo piloto e transversal, não é possível afirmar que a terapia hormonal seja responsável pelas diferenças observadas. “Nosso estudo demonstra uma associação, mas não uma relação de causa e efeito. A terapia hormonal não deve ser indicada como tratamento para DTM. A decisão sobre seu uso deve sempre ser individualizada e conduzida por médicos, considerando benefícios, riscos e características de cada paciente”, pontua a autora.
Para os cientistas, os achados reforçam a necessidade de ampliar a atenção à saúde da mulher na menopausa, considerando não apenas sintomas ginecológicos, mas também condições dolorosas crônicas, saúde mental e qualidade de vida. “As descobertas apontam para a importância de uma abordagem interdisciplinar. Mulheres com dor crônica frequentemente apresentam também sofrimento emocional, alterações do sono e limitações funcionais. Um cuidado integrado aumenta as chances de oferecer um tratamento mais adequado e abrangente”, ressalta Pinheiro.
A equipe já planeja novas pesquisas com um número maior de participantes e acompanhamento ao longo do tempo. Os próximos estudos devem incluir a análise de marcadores biológicos, como os níveis de estrogênio no sangue, além de investigar com mais detalhes o tipo, a dose e a duração da terapia hormonal. O trabalho recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).
