22 de maio de 2026 Foto: JMGM / Wikimedia Commons
Políticas Públicas
Praia do Tombo, em Guarujá (SP), é uma das praias brasileiras certificadas pelo Programa Bandeira Azul

Highlights

  • O Programa Bandeira Azul é um reconhecimento internacional que, segundo a percepção de diversos atores locais, aprimora a qualidade ambiental e a infraestrutura das praias brasileiras certificadas
  • Efeitos positivos sobre turismo e economia local dependem de investimentos e monitoramento permanentes por parte das prefeituras
  • A análise reúne documentos, registros fotográficos e 54 entrevistas realizadas em 16 praias certificadas nas regiões Sudeste e Sul do país

Para estimular a gestão ambiental e o turismo responsável em praias de todo o mundo, uma fundação internacional criou o programa Bandeira Azul, que reconhece praias que atendem a critérios de qualidade ambiental, segurança, infraestrutura e educação ambiental. No Brasil, a percepção de diferentes atores envolvidos – de gestores a moradores –, é de que a iniciativa tem exercido uma influência positiva no turismo, na qualidade dos serviços e na gestão ambiental nas praias que integram a iniciativa. Porém, os bons resultados exigem que os municípios mantenham rotina administrativa, orçamento, equipe técnica e fiscalização contínua das ações.

É o que aponta artigo publicado na sexta (22) na revista Ambiente & Sociedade por pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense, da Universidade Positivo e do Instituto de Desenvolvimento Educacional da Fundação Getulio Vargas.

A partir de abordagem qualitativa, a equipe analisou documentos públicos e privados, registros fotográficos e realizou 54 entrevistas em profundidade com diferentes atores envolvidos na gestão de 16 praias certificadas nas regiões Sudeste e Sul do país. Foram ouvidos gestores públicos, administradores de praias, comerciantes, moradores, turistas, representantes de associações e pesquisadores. O estudo contemplou praias em estágio avançado de implementação do programa, que se concentram nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Santa Catarina.

Segundo o artigo, o programa funciona como um organizador da gestão local ao estabelecer critérios relacionados à qualidade ambiental – como o controle de qualidade da água e a correta gestão de resíduos –, além de infraestrutura, segurança, acessibilidade e educação ambiental. Os impactos também são percebidos na economia local e na valorização da imagem dos destinos, além da percepção de aumento da conscientização ambiental dos frequentadores e da população.

No entanto, a conquista do selo é apenas uma etapa. “O selo, sozinho, não transforma a praia. O que transforma é o processo necessário para conquistá-lo e mantê-lo”, afirma a arquiteta e urbanista Luíza Chiarelli Barbosa França, doutora em Gestão Ambiental pela Universidade Positivo e uma das autoras do estudo.

A necessidade de articulação entre diferentes áreas da gestão pública (meio ambiente, turismo, saúde, educação e obras) aparece como um fator crítico. Além disso, há desigualdades regionais importantes: municípios com mais recursos e experiência tendem a cumprir os critérios com maior facilidade, enquanto outros enfrentam limitações técnicas e financeiras.

Outro ponto de atenção é o risco de o selo ser utilizado apenas como estratégia de marketing. “Todo selo pode se tornar mais simbólico do que efetivo quando é tratado apenas como vitrine. O Bandeira Azul precisa ser entendido como processo contínuo, não como ponto de chegada”, ressalta França.

O estudo ainda aponta divergências na literatura internacional sobre a eficácia do programa. Em países com gestão costeira mais estruturada, o impacto tende a ser mais limitado. Já no Brasil, o selo pode induzir práticas básicas, porém fundamentais, de organização e cuidado ambiental. A expectativa é que os turistas brasileiros passem a exigir, cada vez mais, práticas concretas de sustentabilidade nos destinos.

Diante desse cenário, o artigo recomenda o fortalecimento da educação ambiental, a revisão de critérios para considerar especificidades brasileiras e a garantia de maior apoio técnico e financeiro aos municípios. A participação da sociedade civil surge como elemento central nesse processo. “A colaboração entre governo, setor privado e comunidades é fundamental. O programa se fortalece quando deixa de ser uma ação isolada da prefeitura e passa a ser um compromisso coletivo”, afirma a autora. A expansão do programa para outras regiões também é apontada como um caminho relevante, mas que exige adaptação à diversidade geográfica e social do litoral brasileiro.

Por fim, a pesquisa abre caminhos para novos estudos, como a comparação entre praias certificadas e não certificadas, o acompanhamento de indicadores ao longo do tempo e a ampliação da análise para regiões como Norte e Nordeste. “O desafio é avançar na ampliação do programa, engajar mais atores e garantir que a certificação represente uma prática real de gestão ambiental”, conclui a pesquisadora.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422asoc01561vu29L1OA

Termos de uso

Todos os releases sobre as pesquisas nacionais já publicados na área aberta da Bori (e que, portanto, não estão sob embargo) podem ser reproduzidos na íntegra pela imprensa, desde que não sofram alterações de conteúdo e que a fonte Agência Bori seja mencionada.

Veja como citar a BORI quando for publicar este artigo:

Fonte: Agência Bori


Ao usar as informações da Bori você concorda com nossos termos de uso.

Publicado na Bori em 22/5/2026, 23:45