13 de maio de 2024 Salvar link Foto: Kiefer Pix / Pexels
Saúde
Depressão pós-parto pode estar associada a traumas sofridos na infância, como abuso e negligência emocionais e abuso físico

Highlights

  • Pesquisa inédita no Brasil analisou a relação de cinco tipos de trauma na infância e a depressão pós-parto em 253 puérperas de Rio Verde, Goiás
  • O transtorno foi identificado em 37% das mulheres analisadas, e está associado a todos os tipos de traumas, de negligência e abuso emocional a abuso físico e sexual
  • Mulheres que sofreram abuso emocional na infância demonstraram mais risco para desenvolver a condição

Sofrer abuso emocional na infância pode ser um forte fator de risco para a depressão pós-parto em mulheres. Esse tipo de trauma pode aumentar em até seis vezes a chance de desenvolver a condição em puérperas. É o que mostra estudo inédito de pesquisadores da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade de Rio Verde (UniRV), em Goiás, e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Os dados estão em artigo publicado na segunda (13) na “Revista Latino-Americana de Enfermagem”.

O trabalho avaliou a associação entre a depressão pós-parto e cinco diferentes tipos de trauma na infância sofridos por mulheres: abuso emocional, negligência emocional, abuso físico, negligência física e abuso sexual. A avaliação foi feita em 253 puérperas recrutadas em uma maternidade pública de Rio Verde, em Goiás, com filhos nascidos entre fevereiro e abril de 2022. Ela incluiu também variáveis como o tempo de gestação, status de relacionamento, histórico de diagnóstico de depressão e de abortos.

Esse é o primeiro estudo que relaciona traumas na infância e suas consequências para o puerpério realizado no Brasil, país que tem uma das maiores taxas de abuso infantil do mundo, segundo dados da Sociedade Internacional para a Prevenção do Abuso e Negligência Infantil.

Segundo os dados dos questionários aplicados, mais da metade das puérperas (53%) vivenciou pelo menos um tipo de trauma. Entre elas, o abuso emocional foi o mais comum, sendo relatado por 34% das participantes, seguido de negligência emocional, relatado por 27%, negligência física, por 26%, abuso sexual, por 23%, e abuso físico, por 18%.

Os cinco tipos de abuso e negligência foram associados ao desenvolvimento de depressão pós-parto, que foi identificada em 37% das mulheres da amostra. “Mesmo ao considerar idade de gestação, histórico de depressão e de abortos, foi possível observar uma relação direta entre as vivências do estresse precoce – principalmente as formas de trauma emocional – e o transtorno em puérperas”, analisa Elton Brás Camargo Júnior, coautor do estudo e enfermeiro e docente da Faculdade de Enfermagem da UniRV.

Nas análises, os pesquisadores constataram que as puérperas que vivenciaram abuso emocional na infância demonstraram o maior risco potencial para a depressão pós-parto. Segundo o artigo, esse tipo de abuso é caracterizado por experiências de rejeição, agressão verbal, isolamento ou provocação e pode estar mais fortemente relacionado com o desenvolvimento de depressão em mulheres no puerpério quando comparado com outros tipos de traumas na infância.

Para Edilaine Gherardi-Donato, pesquisadora da USP e coautora do trabalho, a falta de apoio para crianças e adolescentes que experenciam vivências traumáticas emocionais pode explicar o impacto desse tipo de trauma no desenvolvimento da depressão pós-parto. “Um abuso ou negligência física é mais visível, mais fácil de identificar para que alguma ação seja tomada”, explica. “Já um trauma emocional nem sempre é reconhecido pelos adultos, podendo passar despercebido. Esse tipo de abuso pode estar relacionado com a cultura e práticas de relacionamento dos adultos com a criança, causando um trauma contínuo em uma fase muito importante para o seu desenvolvimento cerebral”.

Identificar traumas na infância, segundo o trabalho, pode ajudar profissionais de saúde a rastrear e antecipar casos de depressão pós-parto ainda durante o atendimento de gestantes no pré-natal. A pesquisadora da UFMA Maria Neyrian Fernandes, também coautora do estudo, pontua que esse tipo de informação deve ser considerado para a elaboração de ações em favor da saúde mental materna. “O estudo sugere uma forma diferente de olhar para o atendimento pré-natal. Além da genética, deve-se considerar as experiências de vida da mulher gestante e puérpera — e como essas vivências podem transformar essa mulher e, consequentemente, seus filhos”, finaliza.

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Fonte: Agência Bori

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Publicado na Bori em 13/5/2024, 7:39 – Atualizado em 13/5/2024, 14:01