10 de maio de 2023 Foto: Freepik
Alimentos

Highlights

  • Pesquisa inova ao considerar o gênero, e não o sexo biológico, como fator de acesso aos alimentos
  • 20% dos participantes se enquadram na insegurança alimentar severa: sem acesso à alimentação necessária
  • Autor do estudo defende a inclusão da população LGBTQIA+ nas pesquisas nacionais sobre saúde e demografia

Cerca de 21,1 milhões de brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar grave, entre 2020 e 2022, segundo dados oficiais. A falta de alimentos também foi sentida na comunidade LGBTQIA+ de diversas regiões do país durante a pandemia de Covid-19. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com outras universidades brasileiras, descobriu que a insegurança alimentar afetou sete em cada dez pessoas transgênero e travestis entrevistados pelo grupo. Os resultados estão descritos em artigo publicado na quarta (10), no periódico científico “Plos One”.

Os pesquisadores entrevistaram 109 pessoas que se identificavam como transgênero ou travesti por meio de questionário online, de outubro a dezembro de 2020. Esse grupo foi acessado com ajuda de  instituições como a Aliança Nacional LGBTQIA+ e ambulatórios de saúde específicos à população trans. Como o tamanho da amostra é pequeno, os resultados do estudo não podem ser generalizados para toda a população trans brasileira. “Para mensurar a real dimensão da desigualdade de gênero no acesso a alimentos, seria preciso incluir a categoria de gênero nas pesquisas nacionais sobre saúde e alimentação”, analisa o pesquisador Sávio Marcelino Gomes.

A pesquisa inova ao focar no gênero como fator que dificulta ou não o acesso a alimentos. Estudos tradicionais da área, por exemplo, costumam mensurar o sexo, entre masculino e feminino — e essa forma de analisar os dados não seria adequada diante da complexidade do gênero, segundo o pesquisador Sávio Marcelino Gomes. “Há grupos que estão ficando invisibilizados. O gênero é uma variável que podemos mensurar de formas diferentes: ao analisar se uma pessoa é cisgênero, transgênero, etc.”, informa.

Na amostra analisada, 69% dos entrevistados se enquadram na insegurança alimentar. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), esse termo define situações em que o acesso ao alimento está ameaçado. Isso inclui situações como o medo do alimento acabar, quantidades insuficientes de comida, falta de estabilidade no fornecimento ou quando a comida disponível não é adequada do ponto de visa cultural e/ou nutricional.

Além disso, 20% dos entrevistados relatam insegurança alimentar severa, que caracteriza a fome em sua forma mais cruel. Nesta categoria, o indivíduo não consegue realizar todas as refeições recomendadas por dia e não tem acesso à alimentação de fato. “A vivência trans impacta na insegurança alimentar. As pessoas trans são impedidas de ter uma renda adequada e acesso ao ensino superior, enfrentam a falta de oportunidades no trabalho, e esses fatores são baseados em estigma e discriminação”, explica Gomes.

Os resultados da colaboração com entidades como a Aliança Nacional LBGTQIA+ serviram de base para a criação do primeiro encontro popular de insegurança alimentar entre a comunidade trans, além da criação de um curso de Nutrição LGBTQIA+ para capacitar e conscientizar profissionais e estudantes sobre os desafios da alimentação desse grupo.

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 10/5/2023, 23:45 – Atualizado em 8/7/2024, 15:11