5 de junho de 2026 Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil
Alimentosquilombola
Entre as plantas cultivadas pelos quilombolas, estão as PANCs bredo e a língua-de-vaca, bastante nutritivas

Highlights

  • Estudo da Universidade Estadual de Feira de Santana identificou 148 espécies em quintais quilombolas na Bahia; mulheres são as principais responsáveis pela produção
  • Quilombolas cultivam 115 espécies com fins medicinais e 66 para alimentação, com destaque para 30 Plantas Alimentícias Não Convencionais
  • Pesquisa alerta que fenômenos como a urbanização e o acesso a ultraprocessados estão interrompendo a transmissão de saberes ancestrais para os jovens

Para muitas famílias quilombolas do interior da Bahia, o quintal ao redor de casa é um recurso estratégico diante da falta de direitos territoriais. Em comunidades como Matinha dos Pretos (em Feira de Santana) e Paus Altos (em Antônio Cardoso), esses pequenos lotes funcionam como espaços de resistência em que o cultivo de plantas preserva a identidade do grupo, mesmo sem o reconhecimento oficial das terras pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

A força desse trabalho foi dimensionada em um estudo publicado na revista Ambiente & Sociedade. Feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade Estadual da Califórnia, o levantamento catalogou 148 espécies vegetais em quintais dos dois municípios e revelou que 115 plantas têm fins medicinais e são 66 voltadas à alimentação.

As mulheres sustentam quase inteiramente essa rotina. Enquanto os homens costumam buscar trabalho externo, elas assumem o comando da terra e da produção, atuando da escolha das sementes até a venda do que sobra da colheita em feiras livres. Jociene Nascimento, pesquisadora que acompanhou o dia a dia dessas comunidades, destaca que essa gestão feminina torna a presença de comida variada mais frequente nos pratos e possibilita o acesso a remédios naturais. “Nesse contexto, os quintais tornam-se espaços estratégicos de garantia da segurança alimentar, pois são as mulheres que selecionam, cultivam e manejam uma diversidade de espécies assegurando uma alimentação mais variada, acessível e culturalmente adequada”.

Entre os achados, chamam a atenção 30 Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), como o bredo e a língua-de-vaca, que nascem sozinhas e são muito nutritivas, mas praticamente desconhecidas fora desses quintais. Nascimento pontua que o desinteresse por essas plantas tem raízes sociais profundas. “Em muitos casos, as PANC também são associadas a estigmas sociais, vistas como comida de pobre ou de tempos de escassez o que contribui para seu abandono”, afirma.

O distanciamento das origens ganha ainda mais força com a invasão dos alimentos industrializados e o uso constante de tecnologias, criando um abismo entre gerações. Sem a conversa entre avós e netos, o conhecimento sobre como preparar um xarope caseiro ou o ofício milenar das parteiras está desaparecendo. Para os pesquisadores, os quintais hoje desafiam a modernização para evitar o apagamento do patrimônio cultural negro. “Significa que mesmo convivendo com acesso facilitado à informação, novas tecnologias, medicamentos, alimentos processados e ultraprocessados, os quintais de comunidades tradicionais ainda preservam parte da cultura e saberes de seus antepassados, por isso são tidos como espaços de resistência”.

A saída sugerida pelos cientistas é transformar esses dados em políticas públicas, incluindo a integração de ervas medicinais no atendimento básico de saúde e o incentivo a hortas nas escolas. O objetivo central é reconectar a juventude a esses conhecimentos para que o quintal volte a ser visto não apenas como um pedaço de terra, mas como uma fonte inesgotável de orgulho e autonomia.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422asoc0150vu29L1AOJ

Termos de uso

Todos os releases sobre as pesquisas nacionais já publicados na área aberta da Bori (e que, portanto, não estão sob embargo) podem ser reproduzidos na íntegra pela imprensa, desde que não sofram alterações de conteúdo e que a fonte Agência Bori seja mencionada.

Veja como citar a BORI quando for publicar este artigo:

Fonte: Agência Bori


Ao usar as informações da Bori você concorda com nossos termos de uso.

Publicado na Bori em 5/6/2026, 23:45