29 de maio de 2026 Foto: cottonbro studio / Pexels
Educação
Mesada condicionada pode prejudicar alfabetização financeira de jovens

Highlights

  • Pesquisa da PUCRS revela que condicionar a mesada à ajuda doméstica diminui o conhecimento financeiro dos jovens
  • O hábito consome o tempo de estudo e pode criar uma percepção punitiva da prática
  • O impacto negativo atinge severamente as meninas, aumentando a desigualdade de gênero desde a adolescência.

A mesada costuma ser a primeira experiência de um jovem com a gestão do dinheiro. Muitos pais usam o recurso para premiar o bom comportamento ou garantir que o quarto fique arrumado. O que parece uma lição de responsabilidade pode, na verdade, sabotar o futuro financeiro dos filhos.

Um novo estudo brasileiro, publicado na revista Estudos Econômicos (São Paulo), revela que a mesada condicionada a tarefas domésticas prejudica a alfabetização financeira de estudantes do ensino médio. A pesquisa foi conduzida pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) a partir de dados de 38.236 jovens de 15 anos que realizaram o PISA 2018 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) em 19 países.

A equipe mediu o impacto do dinheiro recebido como presente e o do dinheiro trocado por obrigações em casa. O resultado do exame internacional mostrou que o ganho de conhecimento é positivo para todos quando o valor é livre de condições. Se os pais pagam pelas tarefas, a nota de finanças cai. O efeito é mais intenso para as meninas: segundo os dados do estudo (Tabela 1), meninas que recebem mesada condicionada apresentam média de 481,81 pontos em alfabetização financeira, abaixo dos 490,05 registrados pelos meninos no mesmo grupo e abaixo dos 519,76 alcançados pelas meninas que recebem mesada não condicionada.

Ivana Strapazzon, autora principal do estudo, explica que o problema mora na divisão do tempo: “No contexto do tempo a ser dedicado às atividades, muitas meninas estão em ocupações laborais não diretamente remuneradas (cuidar da casa, dos irmãos mais novos), consequentemente, reduz o tempo delas dedicado aos estudos, além de aumentar a pressão e o caráter punitivo da prática”.

A comunicação familiar sobre dinheiro ainda é um território masculino. Meninos recebem mais tempo de qualidade dos pais para discutir finanças e apresentam níveis mais altos de confiança digital. As garotas, por outro lado, acabam presas a uma rotina doméstica que as afasta dos livros e da autonomia financeira.

Para Ivana, a mesada deveria funcionar como reconhecimento, não como salário doméstico. “A mesada seria um prêmio dado pelas famílias para o esforço individual do estudante nos estudos”.

Os próprios autores ressaltam que, embora os resultados sejam consistentes na maior parte dos modelos estatísticos testados, não é possível afirmar causalidade plena: há especificações em que os efeitos não se mostram significativos, e a base de dados não permite rastrear por quanto tempo cada estudante recebe mesada nem se ela é uma recompensa por desempenho prévio. Os achados apontam para uma associação robusta, não para uma relação determinística.

Formar adultos financeiramente alfabetizados exige uma mudança de postura dentro de casa. Os autores sugerem que os pais privilegiem o diálogo e usem a mesada como ferramenta de autonomia. O foco deve estar em metas de poupança e na liberdade de escolha do jovem, sem transformar a colaboração doméstica em uma jornada de trabalho competitiva.

DOI: https://doi.org/10.1590/1980-53575613img

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Fonte: Agência Bori


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Publicado na Bori em 29/5/2026, 23:45