Foto: Matt Botsford / Unsplash

Por Sabine Righetti*

A Bori foi lançada em 12 de fevereiro de 2020, após cinco anos de captação de recursos e de desenvolvimento de projeto. Nesse período, fizemos diversos exercícios de jornada dos usuários, mapeamos a produção científica nacional, fizemos duas pesquisas de opinião nacionais com jornalistas e com cientistas. Desenvolvemos e testamos a tecnologia diversas vezes. E finalmente lançamos a proposta no auditório do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp, em São Paulo.

Só que tudo mudou logo depois.

Exatamente duas semanas após o início da nossa operação, em 26 de fevereiro, o novo coronavírus foi confirmado no Brasil e os jornalistas de todo o país — especializados ou não na cobertura de ciência — se voltaram à temática. Era uma quarta-feira de cinzas, tínhamos cerca de 300 jornalistas já cadastrados como usuários da Bori (hoje são quase dois mil!). Naquele dia, três desses jornalistas nos pediram ajuda para localizar cientistas para falar sobre a confirmação do novo coronavírus. Mandaram e-mail, nos chamaram nas redes sociais, estavam atrás de fontes para falar sobre a chegada da Covid ao Brasil e não conseguiam achar ninguém porque era feriado. Vale lembrar que estamos falando também de jornalistas jovens ou que tinham acabado de chegar à cobertura de ciência por causa da pandemia — sem, portanto, uma lista de contatos de cientistas. A gente percebeu que não adiantava mais seguir “apenas” com o nosso trabalho de disseminar pesquisas explicadas para a imprensa. Precisávamos fazer alguma coisa a mais — e fizemos.

No mesmo dia, Ana Paula Morales e eu criamos um banco de cientistas brasileiros previamente preparados para atender a imprensa cadastrada, com telefone celular, para tratar da Covid-19. Foi um processo um pouco atabalhoado: saímos acionando cientistas informalmente e, depois, fizemos uma convocatória nas nossas redes sociais — com cards que nosso designer Diego Meneghetti, da Estudioteca, criou às pressas. Decidimos que o banco iria ao ar quando chegasse a dez nomes de pesquisadores brasileiros que topariam falar sobre a Covid-19 com jornalistas. Até o Átila Iamarino, virologista que ficou famoso na sua atuação como divulgador científico, entrou na nossa primeira lista! E, assim, lançamos a iniciativa.

Em todo o nosso planejamento da Bori, não havíamos pensado nesse tipo de ação, que, por causa da pandemia, criamos em poucas horas para atender uma demanda real dos nossos usuários da nossa comunidade. E o banco de fontes se tornou um dos principais serviços da Bori para a imprensa, usado pela imensa maioria dos nossos jornalistas — como constatamos em pesquisa recente que fizemos com nossa comunidade. Sobre ele, a jornalista Giovana Girardi, que tem mais de 20 anos de cobertura de ciência e temas correlatos, nos disse em uma análise de impacto da Bori: “O guia de fontes é sensacional. Para quem não era da área e não tinha fontes, foi uma super mão na roda. E pra quem já tinha fontes, foi uma maneira excelente de diversificar quem aparece nas notícias.” Isso nos orgulha demais!

500 cientistas

Originalmente em formato de uma lista bem simples, o banco de fontes acabou ganhando um design próprio na área da Bori restrita a jornalistas cadastrados — adequada à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). Assessorias de imprensa de instituições de todo o país passaram a nos mandar listas de fontes para adicionarmos ao banco da Bori. Cientistas do Brasil que queiram fazer parte da relação de nomes disponíveis para falar com a imprensa podem acionar a gente diretamente. E, claro, é possível também sair do banco de fontes a qualquer momento.

Hoje, temos quase 500 cientistas do país no nosso banco de fontes que, além de tratar de Covid-19, também traz uma relação de especialistas na áreas de Sistemas alimentares e em Amazônia — nossas três grandes áreas da Bori. As iniciativas são delicadamente cuidadas, mantidas e atualizadas pela nossa gerente de conteúdo Natália Flores em parceria com os coordenadores de área Murilo Bomfim e Débora Gallas, e com a Raquel Ribeiro, responsável pelo engajamento de comunidades da Bori. E, em comemoração aos nossos dois anos de operação, estamos postando todas as sextas-feiras, nas nossas redes sociais, perfis dos cientistas dos nossos bancos de fontes com a tag #cientistaDaBori. Essa frente está com o nosso estagiário Jhonatan Dias. Muita gente envolvida! E tudo isso só é possível com nossos três apoiadores Serrapilheira, Ibirapitanga e Instituto Clima e Sociedade.

Resolvi contar tudo isso porque a necessidade da criação do banco de fontes da Bori evidencia algo que a gente sempre fala: precisamos criar canais facilitados para que jornalistas acessem informações científicas e pesquisadores no timing da própria imprensa. Precisamos apoiar a comunicação das instituições de pesquisa do país, muitas vezes sobrecarregada e com equipes espartanas. O coronavírus não escolheu dia e nem horário para chegar ao Brasil. O primeiro caso confirmado de Covid-19 foi anunciado durante um feriado — e jornalistas precisam falar com suas fontes também nos feriados, finais de semana, à noite. A gente precisa atender as demandas dos jornalistas — e não o contrário — porque, na prática, isso significa atender as necessidades da própria sociedade.

 

*Fundadora da Bori e pesquisadora do Labjor-Unicamp