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Escolher pesquisas científicas que podem virar pauta para o jornalismo de todo o país é uma das tarefas que mais ocupam tempo e energia da equipe da Bori. A cada novo estudo, debatemos o nosso processo de curadoria jornalística sobre ciência — sempre atentos a critérios como qualidade e diversidade e, claro, às demandas da nossa comunidade de jornalistas. A Bori, afinal, é uma iniciativa voltada para a imprensa.

Para se ter uma ideia, acessamos hoje uma média de cem estudos científicos por dia que estão em vias de publicação e que contam com a participação de pesquisadores brasileiros — dos quais temos de selecionar, em média, três por semana para disseminação à imprensa.

São trabalhos de periódicos indexados na biblioteca eletrônica SciELO e associados à ABEC (Associação Brasileira de Editores Científicos), que acessamos por meio de parceria institucional, e estudos que  os pesquisadores nos enviam diretamente pelo site da Bori. Também recebemos livros dos autores e de editoras parceiras como a Editora Unicamp e a Editora da Fiocruz e relatórios técnicos de grupos de pesquisa.

Temos um olhar especial para trabalhos em grandes temas aos quais a Bori se dedica, que atualmente são dois: Covid-19 e Sistemas Alimentares. Todos os trabalhos, no entanto, passam pelos mesmos critérios de curadoria.

A escolha dos trabalhos científicos que antecipamos para a imprensa na Bori — acompanhados de um texto explicativo produzido por nós e do contato de um porta-voz do trabalho — passa por cinco grandes critérios jornalísticos. Isso significa que a gente olha para as qualidades que uma pesquisa tem para virar notícia — o que chamamos, no jornalismo, de critérios de noticiabilidade de um acontecimento.

 

Esses cinco principais critérios da Bori são:

1 Ineditismo do trabalho
2 Diversidade (do tema, porta-voz e área)
3 Qualidade jornalística dos resultados
4 Impacto na vida das pessoas
5 Dimensão pública do tema

 

Vamos tratar de cada um desses critérios a seguir.

1 Ineditismo do trabalho

A Bori só dissemina à imprensa trabalhos científicos em vias de publicação, ou seja, antes desses artigos, relatórios ou livros serem publicados. Isso nos permite preparar um texto explicativo sobre o material científico, que será postado em área restrita acessada pela nossa comunidade de jornalistas acompanhando o estudo original e o contato do porta-voz para entrevistas. Desse modo, a imprensa de todo o país tem acesso a um material completo sobre cada pesquisa que disseminamos na Bori sob embargo jornalístico de cerca de uma semana. As reportagens podem ser veiculadas  no mesmo dia em que o estudo é publicado.

Esse sistema é usado em todo o mundo para disseminação de informações — sejam elas científicas ou de outro tipo — à imprensa com embargo jornalístico. Então, trabalhos acadêmicos que já tenham sido publicados são descartados da nossa curadoria.

2 Diversidade (do tema, porta-voz e área)

A diversidade é elemento central em todas as ações da Bori, incluindo, claro, as curadorias dos trabalhos que serão antecipados à imprensa. Isso significa que a gente se compromete a selecionar artigos científicos de todas as áreas do conhecimento, de instituições de todo o país e respeitando igualdade de gênero nos porta-vozes.

Na prática, os critérios de diversidade guiam as nossas escolhas todos os dias. Por exemplo, se acabamos de antecipar à imprensa um estudo sobre os impactos da pandemia de Covid-19 em idosos e recebemos estudo sobre tema semelhante, então daremos prioridade a outros trabalhos. Ou se divulgamos uma sequência de trabalhos de instituições do Sudeste, vamos priorizar artigos acadêmicos de outras regiões. Temos um olhar especial para estudos de cientistas de grupos minoritários e de regiões e universidades sub-representadas na imprensa. Essa matemática é feita diariamente pela nossa equipe.

Em 2020, por exemplo, 51% das pesquisas divulgadas pela Bori tinham como porta-vozes mulheres — proporção de gênero semelhante a de autoria de artigos científicos no Brasil. Além disso, em todas as regiões do país, ao menos metade das instituições (universidades e institutos de pesquisa) tiveram um estudo disseminado pela Bori. Também tivemos um equilíbrio importante na distribuição por áreas de conhecimento, com um terço dos estudos disseminados à imprensa na área de saúde, um terço de ciências sociais aplicadas e um terço das demais áreas, como biologia e ciências exatas e da terra.

3 Qualidade jornalística dos resultados

Do ponto de vista jornalístico, pesquisas científicas que trazem algo novo, que ainda não se conhecia, em termos de análise de dados e resultados, têm um potencial muito grande de interessar a imprensa. Se forem inesperados, melhor! Histórias jornalísticas podem surgir do inusitado — desde um fóssil raro encontrado na Bacia do Araripe (CE), até de novas espécies de peixes identificadas, pela primeira vez, em Fernando de Noronha.

4 Impacto na vida das pessoas

Um bom jornalista sempre será orientado pelo o que seu público quer saber. No jornalismo de ciência, isso implica perguntar: como esses resultados de pesquisa se relacionam com a vida das pessoas? Que impactos o aquecimento global pode trazer para a população do litoral do Nordeste? O exercício de aproximar a ciência do cotidiano pode ser feito mesmo com pesquisas da ciência básica, já que a produção de conhecimento científico também traz impactos sociais.

Em um ano de pandemia, a ciência brasileira de qualidade serviu para guiar as discussões sobre a contenção da crise. Por exemplo, as pesquisas divulgadas pela Agência Bori foram utilizadas e debatidas durante a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19. Além disso, divulgamos uma série de estudos que buscaram compreender o impacto da pandemia no cotidiano e qualidade de vida dos profissionais de saúde.

5 Dimensão pública do tema

Na Bori, estamos sintonizadas à agenda da imprensa e ao que especialistas e jornalistas têm comentado nas redes sociais. Uma das nossas estratégias é usar o timming jornalístico a nosso favor, escolhendo pesquisas científicas sobre temas “quentes”, do momento. Isso significa, em alguns casos, priorizar estudos que tratam de temas sobre os quais a imprensa — e a sociedade — está debruçada no momento.

Em maio de 2021, por exemplo, antecipamos na Bori um estudo que demonstrou como a exclusão digital afetou o acesso ao auxílio emergencial do governo federal — um dos assuntos mais comentados na imprensa durante a pandemia. Apesar da pandemia de Covid-19 ter sido o principal tema dos jornais neste e no último ano, a pauta ambiental também chamou atenção dos jornalistas. Por isso, divulgamos recentemente um estudo que mostrou que a Amazônia perdeu sua capacidade de absorver carbono por causa do desmatamento.

Isso não significa, no entanto, que deixaremos de fora temas que estejam ausentes no debate público. Ao contrário: é também nosso papel jogar luz a assuntos importantes, mas que estão sub-representados na imprensa em um dado momento, para justamente pautar o debate público. Um dos trabalhos de maior impacto na imprensa disseminados pela Bori tratava de esquizofrenia, mesmo quando toda a mídia estava voltada à Covid-19.

 

Os critérios de seleção, claro, estão em constante debate pela nossa equipe, com nossos apoiadores e, em breve, com nosso Conselho Consultivo. Uma das ideias é incluir, na curadoria, aspectos éticos na condução das pesquisas disseminadas, olhando mais profundamente, por exemplo, para o tipo de apoio que cada pesquisa recebeu.

Também temos preocupação em dar mais voz a minorias raciais. A diversidade racial tem entrado como um dos nossos critérios na seleção dos participantes dos nossos workshops para jornalistas e cientistas. Para a seleção de estudos para antecipação à imprensa, no entanto, essa questão é mais complicada, pois não é trivial ter informação racial sobre os autores. Estamos discutindo na Bori como enfrentar esse desafio.

Se você é cientista, tem um trabalho inédito (que ainda não foi publicado), mas tem dúvida sobre o potencial jornalístico dos resultados, o impacto da sua pesquisa na vida das pessoas e a dimensão pública do tema, mande seu estudo para a gente. Quanto mais materiais incluirmos na nossa curadoria, melhor será o trabalho da Bori junto à imprensa — e mais ciência levaremos até as pessoas pela mídia.